segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Destaque do Mês de Agosto de 2012

 
JOANA PINHEIRO
 

Xénia Leonardo (*)

A UMAR Açores/CIPA, conversou com uma mulher que se destaca na vida quotidiana da maior parte dos cidadãos. Se alguma vez comprou ou vendeu uma casa ou herdou algum bem, pode ter estado na presença desta profissional. Estamos a falar da Srª Notária do concelho da Praia da Vitória, a Drª Joana Maria Martins Pinheiro.
Esta jovem de trinta e quatro anos de idade, concedeu-nos o privilégio de falar de si, enquanto mulher e enquanto profissional do notariado e de nos responder a algumas perguntas.

Como lhe surgiu a ideia de ir para esta profissão?
A ideia foi surgindo com o evoluir da minha vida profissional: primeiro quis ser Advogada (sou da opinião que, antes dos 18 anos, ninguém tem maturidade e informação suficiente para saber o que quer ser “quando for grande”, mas, como muita gente, eu achava que os Advogados e Advogadas das séries americanas eram um espectáculo!!!); depois, já durante o curso de Direito, sonhei em ser Juiz; no entanto, enquanto exercia a Advocacia, trabalhava maioritariamente na área dos Registo e Notariado, e, quando se deu a Privatização do Notariado e surgiu a hipótese de me tornar Notária, não hesitei!

Fale um pouco de todo o trabalho que desenvolve enquanto notária.
Enquanto notária, e no princípio da liberdade contratual, analiso as pretensões das pessoas, aconselho-as juridicamente e concretizo em actos e contratos as suas vontades, o que, normalmente, se traduz em Procurações, Testamentos e variadas Escrituras, como Compras e Vendas, Mútuos, Hipotecas, Partilhas, Contratos Promessa, Arrendamentos, etc. O Cartório presta também assessoria na resolução dos mais variados tipos de situações, obtenção de documentação, registos automóveis, prediais e comerciais, etc. Aquando da concretização dos actos asseguro-me de que o que está a ser feito corresponde efectivamente à vontade de todos os interessados, e que todos estão devidamente esclarecidos, capazes de decidir livremente e conscientes das consequências legais do acto.

Houve algum motivo especial que a levou a escolher o concelho da Praia da vitória para exercer as suas funções?
Foram várias as circunstâncias que me levaram a optar por concorrer, em primeiro lugar, ao Cartório Notarial da Praia da Vitória: em primeiro lugar, queria fixar-me profissionalmente num lugar diferente de onde estava (Lisboa); em segundo lugar, já conhecia a Ilha Terceira há uns anos e desde que cá vim pela primeira vez nasceu em mim uma vontade enorme de cá voltar sempre que podia; por último, tomei conhecimento de que a Licença para instalação do cartório privado da Praia da Vitória estava a concurso, e não pensei duas vezes!

Alguma vez se sentiu discriminada por ser mulher e exercer esse cargo?
Senti, por vezes, alguma perplexidade quanto à minha idade (comecei a exercer a profissão com 27 anos), mas nunca senti qualquer “resistência” pelo facto de ser Mulher.
Antes de mim já muitas Mulheres exerceram esta profissão, pelo que não sou, propriamente, uma “novidade”.
Pelo contrário, tenho sido muito acarinhada e elogiada por todos os clientes que me procuram, que vêm os seus problemas resolvidos, com profissionalismo e celeridade aliados a simpatia e vontade de ajudar.

E relativamente a outros tipos de discriminação, que afectam a mulher, alguma vez os sentiu?
Felizmente não, pois não sei se me conseguiria conter…
Talvez por sorte que desde que nasci tenho andando em ambientes (família, vizinhos, amigos, escolas, passatempos, desportos, etc) nos quais a “verdade absoluta” é que somos todos iguais; quer em relação ao género, à cor da pele, à profissão, às opções religiosas, à situação económica, etc; é claro que há sempre alguém com uns “ideais” um pouco diferentes, mas não são mais do que uma pequena minoria, e que, por fraca argumentação, ainda dão mais clarividência à lógica da igualdade.
Nunca senti qualquer discriminação, mas talvez já tenha ouvido algum comentário discriminatório; se tal aconteceu nem me lembro, pois, por não lhe encontrar qualquer validade, terá passado para a parte “dispensável” da minha memória!

No concerne à violência doméstica / no namoro, como acha que as pessoas de uma forma geral encaram esta problemática?
Bem, quanto à igualdade entre géneros, e embora as mentalidades estejam a mudar, ainda há muita divergência de opinião.
No entanto penso que a opinião grandemente maioritária é contra a violência doméstica / no namoro, seja qual for o género agressor (também existem bastantes casos de homens violentados, mas estes ainda são menos expostos).
Na minha opinião uma pessoa “agressora” não o é por acreditar que o possa ser, que a sociedade o permite, ou que assim é que se devem resolver as coisas; é-o por padecer de capacidade mental que permita a resolução de problemas com calma e maturidade; é-o por não ter noção do limite dos seus direitos e liberdades; e na minha opinião, uma pessoa violenta e normalmente agressora está muito aquém do desenvolvimento social exigível nos nossos tempos.

Considera que existe uma sensibilização correcta e suficiente na sociedade, para este tipo de problemáticas?
Penso que as duas problemáticas aqui em questão (igualdade entre géneros e violência doméstica) são bastantes diferentes, embora sempre algo relacionadas.
Tenho forte convicção na igualdade entre géneros, pelo acho que existe na sociedade uma sensibilização correcta e suficiente. Mas demora o seu tempo, talvez algumas gerações, a chegar a toda a gente. Se, hoje em dia, ainda existem gerações novas com crenças de que a mulher tem de ter um certo tipo de tarefas, obrigações e muitas limitações na sua vida social e afectiva, estas crenças, ainda que cada vez com menos força, estão a ser transmitidas a jovens.
Quanto à violência (que inclui sempre agressões físicas e psicológicas), o problema não será resolvido, para as pessoas que a sofrem, por sensibilização. Quem não tem coragem para enfrentar uma eventual agressão, talvez nunca a venha a ter. O que é importante é que as pessoas sejam habituadas a acreditar, quase desde que nascem, que nunca deverão deixar-se agredir, seja esta agressão física ou psicológica. Se acreditaram a sério nisto, nem darão hipótese a uma primeira agressão. E estarão a salvo, em princípio, para sempre!!!

Como acha que as mulheres se encontram actualmente na sociedade? E como esta mesma sociedade as encara?
Acho que estão em forte “expansão”! Cada vez mais se vêem mulheres de sucesso e independentes sem que, para isso, tenham deixado de serem “mães” ou “mulheres de família”.
Além de as mulheres serem já tão independentes, estão cada vez mais a ocupar cargos públicos, políticos ou de grande responsabilidade, demonstrando que, em nada, somos inferiores. Desempenhamos toda e qualquer função com a mesma capacidade e destreza que os homens. Nem há qualquer razão biológica para que assim não seja, ou há???
E acho que a sociedade tem encarado com naturalidade esta evolução!

O que pensa do Movimento Feminista?
Tem sido útil, pois para tudo é preciso uma frente forte. Se não tivessem existido mulheres capazes de ir à luta, mesmo que isso lhes custasse a vida, talvez a nossa realidade actual não fosse tão óbvia…
É claro que em tudo temos de ter cuidado com extremismos, pois nunca se poderá chegar ao ponto de defender a “superioridade” das mulheres ou a “desnecessidade” dos homens. Somos todos iguais, e temos todos de assim ser tratados! Somos todos importantes!  

Na sua opinião, julga que as mulheres têm lutado para defender os seus direitos e combater as desigualdades? Ou ainda há muito mais para fazer? O quê? E os homens, qual tem sido o seu papel nesta luta para equilibrar o papel do homem e da mulher na sociedade?
As mulheres têm lutado neste sentido. E os homens também já o fazem! Trata-se de mentalizar a sociedade no geral, os dois géneros. Tanto há homens como mulheres que não acreditam na igualdade! E é esta parte da sociedade que tem de evoluir para o estádio seguinte!

Que mensagem gostaria de deixar à pessoas acerca da violência doméstica / no namoro e sobre a igualdade (ou desigualdade) de género, uma vez que esta última problemática está directamente ligada à violência doméstica?
Todas as vidas têm igual valor!
Todos os seres humanos têm direito à liberdade, à opinião, e, principalmente, à sua integridade física e psicológica!
Todos temos opiniões e todas são igualmente válidas!
 
(*) Jurista da UMAR Açores/ CIPA
 
Publicado na Página Igualdade XXI no Jornal Diário Insular de 29 de Agosto de 2012
 
 

Destaque do Mês de Julho de 2012

SARA SILVEIRA 
 

Sara Lima Silveira tem 34 anos e é licenciada em engenharia e gestão do ambiente com especialização em gestão e conservação da natureza. Possui mestrado em engenharia do ambiente e é, desde 2009, técnica superior na Secretaria Regional do Ambiente e Mar e presidente da direcção AMPA - IT Associação de mulheres de pescadores e armadores da ilha Terceira desde 1 de Junho de 2011.

O que a motivou a fazer parte da AMPA - IT?
O facto da associação ter passado por uma fase menos boa e de ter estado em perigo de ser encerrada, levou a que houvesse necessidade de eleger para os seus corpos constituintes pessoas com vontade e conhecimentos suficientes para reerguer a associação e realizar um trabalho que permitisse o lançamento e continuidade do projecto Pesca-Turismo e de outras formações que possam dar conhecimentos e ferramentas úteis de trabalho à comunidade onde está inserida. Pessoalmente o que me motivou a encabeçar esta lista como Presidente da Direcção da AMPA-IT foi uma grande vontade de fazer alguma diferença e ajudar de alguma forma a comunidade onde nasci, cresci e vivo até hoje.

Acha que as associações feministas desempenham um papel importante na nossa sociedade actual?
Com certeza, o fomentar do diálogo e da discussão entre membros das várias associações e público em geral sobre questões pertinentes como a igualdade de direitos é sempre uma mais valia e uma contribuição para a abertura de todas as mentalidades.

Já trabalhou como o guarda-florestal de 2001 a 2009. Tendo em conta que é uma profissão associada maioritariamente ao masculino como foi a sua integração?
De início foi um pouco complicado fazia parte de um grupo restrito (onze mulheres guardas-florestais a nível nacional), trabalhei sempre com homens em diversas frentes de trabalho e muitas vezes em locais onde não existiam condições durante estes oito anos, no entanto foi das melhores experiências que tive, fiz grandes amizades, tive excelentes convívios e aprendi muita coisa a nível profissional com as dezenas de operários rurais com quem trabalhei. Consegui ultrapassar todas as dificuldades que me foram aparecendo através do diálogo e sendo uma pessoa muito activa, mas principalmente sendo humilde e sabendo ouvir e aceitar as opiniões/sugestões dos operários que comigo trabalhavam e que já tinham muitos anos de experiência. Criou-se um elo de respeito mútuo e de protecção, eles olhavam por mim e eu por eles.

Alguma vez sentiu que, no exercício da sua profissão, não lhe era dada a devida credibilidade por ser mulher?
No início da minha carreira de guarda-florestal apareceram algumas situações em que senti discredibilidade pela minha opinião nas frentes de trabalho, mas a partir do momento em que mostrei ter o conhecimento teórico e prático das situações que apareciam e que as resolvia sem qualquer dificuldade, esta questão nunca mais se pôs até aos dias de hoje.

Já alguma vez sentiu que era discriminada pelo facto de ser mulher?
Não. Se por acaso alguma vez alguém me discriminou por ser mulher passou-me ao lado, sempre fui uma pessoa muito determinada. Quando traço objectivos na minha vida procuro sempre cumpri-los da melhor forma, sem me interessar sobre o que as pessoas vão pensar ou se vou ser ou não discriminada por isso. Já fiz grandes sacrifícios pessoais, tirei uma licenciatura e mestrado enquanto trabalhava, cuidava dos afazeres de uma casa e criava um filho pequeno.

Como acha que são vistas as mulheres vítimas de violência doméstica pela sociedade em geral?
Há uns anos atrás a violência doméstica contra as mulheres era vista, infelizmente, com uma naturalidade assustadora, actualmente já é vista como deve ser vista: é um crime punido por lei. A sociedade já denúncia este tipo de violência e já apoia as vitimas, coisa que não acontecia no passado. A sociedade evoluiu imenso nos últimos anos, as pessoas estão mais conscientes do que se passa à volta delas, as mulheres em particular, são mais guerreiras lutam pelos seus direitos e deveres e têm objectivos definidos para as suas vidas.

Quais as perspectivas futuras para a AMPA-IT?
Gostaria que as mulheres ligadas directamente à pesca se unissem mais e participassem mais nesta associação, nomeadamente nas oportunidades de formação e que futuramente a liderassem com rigor e vontade de realizar um bom trabalho.
 
Publicado na Página Igualdade XXI no Jornal Diário Insular de 1 de Agosto de 2012
 

A afirmação das mulheres na pesca artesanal


As questões de género, as discriminações e desigualdades, afectam as mulheres nas diferentes áreas da sociedade. Esta noção tem levado a UMAR a desenvolver linhas de acção e projectos integrando a visão de género e a perspectiva feminista de “empoderamento” das mulheres, promovendo o seu reconhecimento e valorização, como no caso das mulheres na pesca.

A acção da UMAR nos Açores com vista a combater a invisibilidade e promover a igualdade e a valorização das mulheres na pesca, decorre desde o início de 2000, ganhando maior alcance na parceria com associações da pesca no projecto EQUAL Mudança de Maré. Confirmou-se que as mulheres estavam lá, na pesca, mas não eram visíveis. A sua actividade não era valorizada, nem reconhecida.

Outras parcerias têm vindo a acontecer como a parceria com Descalças Cooperativa Cultural, no âmbito da qual se têm desenvolvido actividades como o filme Mulheres na Pesca de Maria Simões, filmado em 2011, numa co-produção de Descalças e UMAR Açores, o qual tem vindo a ser apresentado em diferentes espaços na Região e no Continente Português.

Numa primeira fase, a acção centrou-se no combate à invisibilidade promovendo a valorização do papel das mulheres na pesca e a igualdade entre homens e mulheres, e de seguida na identificação da presença e papeis das mulheres na pesca, com vista ao reconhecimento da sua presença, particularmente na pesca artesanal. Neste contexto tem vindo a realizar-se trabalho em rede e de estudo sobre a situação das mulheres na pesca nos Açores – investigação acção participada - em que as mulheres são protagonistas activas.

As mulheres afirmam-se e, entretanto emergiram duas associações: Associação de Mulheres de Pescadores e Armadores da ilha Terceira (AMPA - IT) e a Ilhas em Rede - Associação de Mulheres na Pesca nos Açores, dando estrutura orgânica à afirmação e visibilidade das mulheres.

O intercâmbio de experiências e de conhecimentos tem sido uma componente forte desta actividade, com encontros inter-ilhas, acções formativas e workshops incluindo a realização de oficinas de Teatro do/a Oprimido/a  (TO) com a presença activa de mulheres da pesca.

O intercâmbio vai para além da região e fronteiras. A nível europeu: integração na Rede europeia de mulheres na pesca AKTEA e no Conselho Consultivo Regional das Águas Ocidentais Sul CCR-Sul.

Podemos assinalar, neste percurso, um conjunto de actividades - projectos e produtos da UMAR Açores e acontecimentos nesta área durante os últimos anos, com início em 2003 no Mudança de Maré até à presente data com o projecto Caminhos em Terra e no Mar, de cujo relatório final se destaca: “As mulheres, bem como o importante papel que estas desempenham no sector piscatório, são hoje bem mais (re)conhecidas dentro e fora de portas do que eram há uns anos atrás quando a UMAR Açores  resolveu trabalhar sobre a realidade e a consciência social relativamente à igualdade de direitos e oportunidades no sector. Sucedendo-se aos projectos “Mudança de Maré” e “As mulheres na Pesca dos Açores”, este “Caminhos em Terra e no Mar “, que agora chegou ao fim, poder-se-á considerar a 3ª etapa do desenvolvimento do movimento de valorização das mulheres na pesca nos Açores”.

Clarisse Canha - UMAR Açores
 
Publicado na Página Igualdade XXI no Jornal Diário Insular de 1 de Agosto de 2012
  

IX Noite de Igualdade



No dia 13 de Julho decorreu, na Delegação da Terceira da UMAR Açores / CIPA, a IX Noite de Igualdade, que incidiu sobre o trabalho das mulheres no sector da pesca nos Açores.  

Num primeiro momento, foi apresentado o documentário de Maria Simões intitulado “Mulheres na pesca”, onde é demonstrada a participação das mulheres nas várias fases da pesca, desde os preparativos feitos em terra: a preparação das gamelas, o safar aparelho, até ao transporte do pescado para a lota, a sua compra e venda. São também abordadas as dificuldades que passam as pessoas que vivem desta actividade.  

Num segundo momento, teve lugar uma tertúlia com a participação de três mulheres relacionadas, cada uma da sua forma, com a pesca e as mulheres pescadoras (de terra ou de mar): Carmen Ficher, trabalhou como gameleira durante 15 anos, foi uma das fundadoras da Associação de Mulheres de Pescadores e Armadores da Ilha Terceira (AMPA-IT); Sara Silveira, mestre em Engenharia do Ambiente, actual presidente da AMPA-IT e Alison Neilson, investigadora, responsável pelo projecto EDUMAR – Perspectivas Sobre o Mar e a Vida Marinha, Cetáceos e Turismo nos Açores e Terra-Nova e coordenadora do Centro Regional de Peritos em Desenvolvimento Sustentável nos Açores.

No final desta conversa informal, percebeu-se que pouco a pouco as mulheres têm avançado alguns passos na longa caminhada pela igualdade de género no espaço doméstico e também no mundo do trabalho, vendo cada vez mais reconhecida e valorizada a sua participação na sociedade.

Rita Ferreira
 
Publicado na Página Igualdade XXI no Jornal Diário Insular de 1 de Agosto de 2012
 

quarta-feira, 4 de julho de 2012

IX NOITE DE IGUALDADE - Mulheres na pesca


IX NOITE DE IGUALDADE

MULHERES NA PESCA

Sexta-feira 13 de Julho de 2012 - 20 Horas
UMAR Açores / Cipa - Delegação da Ilha Terceira
Recreio dos Artistas em Angra do Heroísmo

Apresentação e debate do documentário
"mulheres na pesca" de Maria Simões (4)
co-produção Descalças e UMAR Açores

São convidadas:
Alison Neilson (1)
Carmen Ficher (2)
Sara Silveira (3)

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OBRIGADA


(1) Alison Neilson é pós-doutorada pelo Departamento de Ciências Agrárias da Universidade dos Açores e responsável pelo projecto EDUMAR - Perspectivas Sobre o Mar e a Vida Marinha, Cetáceos e Turismo nos Açores e Terra Nova. Tem trabalhado com as comunidades locais de pescadores nos Açores para entender como as pessoas interpretam o mar e como este conhecimento é valorizado e utilizado em educação, política e sustentabilidade. É coordenadora de RCE Açores (Centro Regional de Peritos em Desenvolvimento Sustentável nos Açores, na programa da Nações Unidas para a Década da Educação para o Desenvolvimento Sustentável).

(2) Carmen Costa Fernandes Ficher foi gameleira, por influência do seu marido armador, durante aproximadamente quinze anos. Foi uma das fundadoras da AMPA IT – Associação de Mulheres de Pescadores e Armadores da Ilha Terceira, tendo sido a primeira Presidente da Assembleia-geral da associação. Actualmente, orienta outras mulheres gameleiras e coopera quando necessário, sendo que muitas das vezes participa na actividade.

(3) Sara Lima Silveira é licenciada em Engenharia e Gestão do Ambiente com especialização em Gestão e Conservação da Natureza e Mestre em Engenharia do Ambiente. Desde 2009 que é técnica superior na Secretaria Regional do Ambiente e Mar e é actualmente Presidente da Direcção da AMPA IT - Associação de Mulheres de Pescadores e Armadores da Ilha Terceira desde 1 de Junho de 2011.

(4) Sinopse - Antigamente dizia-se que uma mulher no porto era uma prostituta. Hoje, já não é assim. As mulheres na pesca nos Açores representam uma percentagem importante no sector e procuram a sua cada vez maior visibilidade, desejando a igualdade no trabalho.
Encontram-se em quase todas a tarefas da pesca (desde os preparativos em terra, à extracção, à compra e venda, à indústria conserveira, à investigação), em quase todas as ilhas, e há quem as divida entre pescadoras de terra e de mar.
Durante um ano, andei à pesca de algumas destas mulheres nas ilhas do Pico, Faial, Terceira e São Miguel, sem nunca ter entrado no mar, como se , desta vez, ficasse, para sempre, prisioneira na doca.

Doc PT cor 54’
Co-produção: Descalças/Umar-Açores

REALIZAÇÃO e CÂMARA Maria Simões
SOM Tiago Melo Bento, Luís Bicudo, Carmen Ficher, Mariana Botelho, João Engrácio, Fátima Ramos
MONTAGEM Isís Lopez, Maria Simões
SOM ESTÚDIO gravação Tó Garcia voz off Maria Simões
APOIOS Direcção Regional do Trabalho e Solidariedade Social, Corredor - Associação Cultural, RTP/RDP Açores

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Destaque do mês de Junho de 2012

MARÍLIA CORDEIRO


Por Mariana Ornelas (*)

            Marília Fátima Martins Cordeiro, natural da ilha Terceira, vinte e nove anos de idade é uma das mulheres Bombeiras Voluntárias da ilha Terceira.

            Licenciada em Ciências da Educação, Marília trabalha actualmente como monitora de Inserção Social na Associação Cristã da Mocidade da Ilha Terceira (ACM).

            Quando perguntei qual teria sido a razão de voluntariar-se para os Bombeiros, esta respondeu logo de imediato que a sua motivação foi a dinâmica da profissão e o “bichinho que tinha dentro de si que a chamava para ser bombeira”.

De facto, o que mais me impressionou ao conhecer a Marília foi o entusiasmo com que esta falava da sua vida enquanto Bombeira. Apercebi-me instantaneamente, que a Marília era uma Bombeira por vocação. Nem as dificuldades que enfrentou, após a sua aceitação nos Bombeiros Voluntários move-a de atingir o seu sonho.

Quando a Marília entrou para os Bombeiros em 2003, as infra-estruturas não estavam preparadas para receber mulheres. Não existiam vestuários nem balneários para as mulheres, logo estas tinham que despir-se e vestir-se sem o mínimo de privacidade, facto que causava grande transtorno. No final de 2003, criaram-se as infra-estruturas necessárias para as mulheres, no entanto os vestuários continuam a ser demasiado pequenos em comparação com os dos homens.            

Além das dificuldades estruturais, também existem as da profissão e as culturais, facto que a Marília não quis deixar de realçar. “Quando se é uma mulher Bombeira, é necessário ser muito persistente e ter muito amor e vocação pela profissão, pois esta é muito dura fisicamente e acabamos por abdicar de alguns momentos com a nossa família, visto passarmos muitas horas a trabalhar. Para além disso, a sociedade em geral ainda associa esta profissão ao masculino, a aceitação a nível da população é difícil, as pessoas acham muito estranho ver uma mulher Bombeira”.

Apesar de haver um maior número de mulheres no ramo a vida de bombeira é muito difícil levando a que muitas acabem por desistir. A falta de apoio familiar, muitas horas e dias de trabalho, a população não estar sensibilizada para ver uma mulher bombeira, a nível pessoal a maioria dos namorados ou maridos não se sentirem bem com o facto da sua mulher trabalhar num mundo maioritariamente masculino, são as principais razões que a Marília apontou para o facto de muitas das suas colegas terem abandonado tal profissão.

Marília, também sentia algumas destas dificuldades, tendo-as ultrapassado, com o profissionalismo que é exigido à profissão, ignorando preconceitos ou suposições. Integrou-se na equipa procurou o seu espaço e entregou-se de corpo e alma à dinâmica de trabalho. Durante este processo, refere que nunca se sentiu discriminada pelos colegas, sempre houve muito companheirismo.

Neste momento e devido à sua vocação força de vontade e profissionalismo, a sua credibilidade nunca foi posta em causa. Os seus colegas masculinos muitas vezes acabam por deixa-la actuar como forma de demonstrar o seu voto de confiança. Esta refere “ Se formos profissionais não surge quaisquer problemas nesta ou em alguma profissão”.  

      Ao longo da entrevista, Marília sempre realçou o quanto se sente feliz pelo facto de nunca ter desistido, esta menciona “ Sinto-me muito feliz, nunca deixarei esta profissão, mesmo quando tiver filhos nunca desistirei. A família Bombeiros Voluntários torna-se a nossa segunda família. Esta família ensinou-me imenso, demonstrou o que era o companheirismo, a confiança uns nos outros e valores. Ser bombeira é uma aprendizagem dura mas externamente gratificante. O enriquecimento pessoal é enorme, os valores que aprendemos nesta profissão são para toda uma vida”.


 (*) Mariana Ornelas
Psicóloga da UMAR Açores / CIPA
Delegação da ilha Terceira

Publicado na Página Igualdade XXI no Jornal Diário Insular de 22 de Junho de 2012

SABIA QUE...

Imagem cedida pelo autor
Mariana Ornelas (*)

            Não foi só a padeira de Aljubarrota que mostrou bravura a combater os espanhóis na respectiva batalha. Temos ao longo da História de Portugal, desde das Invasões Espanholas, às Invasões Napoleónicas, às Lutas Liberais, à Primeira Republica, ao Estado Novo e à Revolução de Abril, inúmeros casos de mulheres Portuguesas que perante crises lutaram pelas suas vidas, famílias, pela sua segurança, liberdade e pelos seus direitos.

            O caso mais famoso na nossa ilha Terceira é o caso da Brianda Pereira. Como todos nós sabemos, Brianda Pereira foi uma das responsáveis pela expulsão dos espanhóis, quando da invasão em 1581 na Baía da Salga.  

            Diz a história, que Brianda Pereira pertencia a uma das famílias mais nobres da cidade de Angra. O seu pai foi juiz ordinário da Câmara de Angra em 1553 e descendia de Pero Anes de Alenquer, um dos primeiros colonos da ilha Terceira.

Brianda Pereira mudou-se para a baía da Salga após o seu casamento. Casou-se com Bartolomeu Lourenço, que era dono de muitas terras e tinha uma abastada casa agrícola na zona litoral do Porto Judeu. A casa do casal situava-se na arriba da baía da Salga, onde residiram com os seus filhos até 25 de Julho de 1581.

            A 25 de Julho de 1581, no contexto da luta entre partidários de Filipe II de Espanha e de D. António I de Portugal, ocorreu nesse dia na baía da Salga, a famosa batalha da Salga.  

A batalha iniciou-se pelo desembarque de uma força espanhola que de imediato incendiou as searas e as casas existentes nas imediações, entre as quais muito provavelmente a de Brianda Pereira, aprisionando os homens que encontrou. Entre os prisioneiros figurava Bartolomeu Lourenço, que se encontraria ferido.

Nesse momento, Brianda Pereira fugindo com seus filhos e a ver provavelmente a sua casa e as searas em chamas e o seu marido ferido e prisioneiro dos espanhóis encheu-se de coragem e lançou as seus toiros em tropel sobre os espanhóis tendo estes após o sucedido, iniciado a sua retirada. A partir daqui estava lançado o mito de Brianda Pereira, tornando-se uma heroína.

Muito mais tarde, com a ajuda da muito bem oleada máquina de propaganda do Estado Novo, fizeram de Brianda Pereira uma figura popular, particularmente por apelar à heroicidade dos habitantes da ilha Terceira e assim alimentar o sentimento nacionalista e independentista Português.

No entanto, não desprezando o heroísmo de Brianda Pereira, esta foi mais uma das muitas demonstrações de coragem que uma mulher faz com o objectivo de proteger-se a si e há sua família. No momento da batalha, ao ver o seu marido ferido e prisioneiro dos espanhóis e ao ver-se sozinha a zelar pela segurança dos seus filhos, esta não pensou duas vezes em agir e elaborar tal estratégia. Qual seria a mulher que não faria o mesmo?


(*) Mariana Ornelas
Psicóloga da UMAR Açores / CIPA
Delegação da ilha Terceira


Publicado na Página Igualdade XXI no Jornal Diário Insular de 22 de Junho de 2012