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segunda-feira, 9 de novembro de 2020

Contra a LGBTI+Fobia aos Caminhos da Igualdade

 Os Caminhos da Igualdade, ontem e hoje...



“Nas Asas da Igualdade” revelou não existir nos Açores nenhuma organização dedicada ao campo LGBT. Foi em 2007, Ano Europeu da Igualdade. No âmbito do Projeto deste nome, promovido nesse ano pela UMAR Açores, em parceria com diferentes organizações, foram tratados temas relativos a diferentes tipos de desigualdades e áreas da sociedade, visando promover a Igualdade de uma forma mais ampla, numa dinâmica transversal que toca a todas e todos. Nos temas tratados incluiu-se temas como Homofobia e Sexualidade, nomeadamente, num Ciclo de Cinema, que decorreu no mês de Setembro, na Biblioteca Pública de Ponta Delgada.
Antes de mais, afirmamos que ao constatar esta realidade, isto é, a inexistência de organizações específicas nesta área, este reconhecimento, contribuiu para impulsionar a denúncia e o debate sobre as discriminações no campo LGBT.

Neste artigo para o evento online “Contra a LGBTI+Fobia aos Caminhos da Igualdade” (realizado no passado dia 17 de Maio) muito se poderia falar do Movimento LGBT e dos Feminismos na Região, nomeadamente contra as discriminações múltiplas, mesmo antes de 2007, mas o que aqui queremos destacar, são alguns importantes passos dados sobretudo nos últimos anos.
Neste contexto destacamos dois eixos: Primeiro, a intervenção de organizações da área da Igualdade e dos feminismos; Segundo o surgimento de associações do campo LGBT.

Primeiro eixo.
Podemos destacar o trabalho de associações da área da Igualdade tais como a APF Açores, o CIPA Novo Dia em São Miguel e o CIPA UMAR Açores na Terceira. No que respeita, ainda à UMAR Açores, e a intervenção dos seus Núcleos - Faial, Terceira e São Miguel, temos de reconhecer a importância do Projeto “Nas Asas da Igualdade”, a partir do qual se foi alargando mais a ação feminista nas discriminações múltiplas, incluindo a ação no campo LGBT. Esta ação ganhou forma em diferentes tipos de iniciativas, nomeadamente sensibilização e formação-ação, sobretudo junto de jovens, e, ações públicas onde se destaca a celebração do dia 17 de Maio, Contra a Homofobia, assim como a parceria ativa com outras associações da área LGBT, que entretanto foram emergindo.

No segundo eixo:
2011 Surge a Pride Azores, seguindo-se importantes ações públicas e de rua como o Festival e a Marcha Prideazores, em 2012, em Ponta Delgada, assim como, em 2013 e 2014. Em outro trabalho inserido no Evento Online “Contra LGBTI+Fobia, aos Caminhos da Igualdade” - o Balanço de três anos da Pride Azores, da autoria de Casilda Pascoal e Terry Costa, podemos saber mais, sobre este importante movimento.
Mais recentemente outras importantes e diversificadas ações, têm-se destacado em diferentes ilhas da Região. Concluímos com uma referência especial a 2019, a Homenagem a Marielle Franco, a 17 de Maio de 2019, junto ao nosso mar, na Praia do Pópulo, em São Miguel.
A “Ponta Delgada LGBT”, tendo em conta o dia 17 de Maio, dia contra a Homofobia e a Transfobia, juntou-se à UMAR AÇORES, para em conjunto fazer uma homenagem a Marielle Franco, socióloga, feminista e defensora dos direitos humanos assassinada brutalmente no ano passado.

Aproveitamos para referir o papel da LGBT Ponta Delgada, LGBT Azores e realçar a sua ação, nos anos mais recentes, na retoma de iniciativas da Comunidade LGBT, a nível local.

 

Clarisse Canha - UMAR Açores

Publicado na Página IGUALDADE XXI no Jornal Diário Insular de 13 de Junho de 2020


terça-feira, 14 de novembro de 2017

25 Anos de UMAR Açores


Associação Para a Igualdade e Direitos das Mulheres
 
Clarisse Canha e Maria José Raposo
 
Outubro de 2017 é mês de comemoração para a Umar-Açores. Em 1992 chega aos Açores a União de Mulheres Alternativa e Resposta, a fim de trabalhar a prevenção e o combate ao fenómeno da violência de Género no percurso feminista dos direitos das Mulheres e na Igualdade nos Açores, com base no ativismo e no voluntariado.
A violência contra as mulheres era e é um obstáculo à concretização dos objetivos da Igualdade que fundamentam os direitos humanos e as liberdades fundamentais.
Hoje, muitas mulheres vítimas do crime de violência doméstica não sentem ainda, nos seus quotidianos o impacto positivo dos avanços ao nível da legislação e das práticas, persistindo um sentimento de revitimização, de resposta desadequada ou extemporânea e de insegurança persistente.
Entre os grupos de maior vulnerabilidade a este fenómeno estão as crianças, as pessoas idosas, pessoas dependentes e as pessoas com deficiência. Contudo as mulheres continuam a ser o grupo onde se verifica maior vitimização, assumindo claramente uma dimensão de violência de género.
Desde 2008 a UMAR - Associação Para a Igualdade e Direitos das Mulheres, prossegue este trabalho com a mesma sigla, sem nunca desvirtuar os seus pressupostos e caminhada, passando de delegação para Associação.
Na evolução da UMAR-Açores, identificam-se diferentes etapas, desde o debate publico, formação-ação, promoção da mulher no trabalho, ativismo pelo fim da violência contra as mulheres. Articula atividades e projetos com organizações de outras áreas de intervenção, integrando trabalho de rede e inúmeras parcerias.
Em 1997, reconhecendo-se a violência doméstica e de género uma das barreiras à emancipação das mulheres e à igualdade, criou-se a LINHA SOS-MULHER, pioneira em Portugal, pensando nas mulheres que dentro de casa tenham as vozes silenciadas.
Uma das mais-valias da sua atividade nos Açores, prende-se com a garantia de trabalho continuado, com base no ativismo, voluntariado e equipas profissionais, assim como trabalho em rede e parcerias.
De facto nos anos 90, foi a hora de se criar raízes, numa evolução organizativa, que imprime à Associação uma responsabilização na prevenção, no estudo, na procura de soluções para colmatar as necessidades de inúmeras mulheres, jovens e famílias por estes Açores fora.
Aposta-se na prevenção, na sensibilização, na formação de mulheres, com vista à conquista da sua autonomia, capacitação e autoestima pessoal, social e profissional.
Momentaneamente cria-se a delegação da UMAR- Terceira e da UMAR- Faial, esta última com valência de Casa de Abrigo, a segunda nos Açores e a primeira a localizar-se no Grupo Central. Local onde as mulheres em perigo eminente encontram apoios, compreensão e orientação para traçarem um futuro sem opressão e perigo.
Por tudo isto destaca-se a UMAR-Açores, como Associação dinâmica, produzindo impacto na sociedade açoriana no âmbito da Igualdade e dos feminismos na Região.
Nas décadas de 80 e 90 destacam-se a celebração do Dia Internacional da Mulher e o lançamento do movimento de combate à violência doméstica e de Género.
Nas décadas seguintes, prosseguem-se linhas de formação/ação, destacando-se o papel de se refletir e desenvolver a prevenção no domínio da violência no namoro, violência doméstica e no âmbito da Igualdade de Género.
Faz-se investigação a fim de promover a mulher e o trabalho, comprovado em inúmeras publicações, que fomos editando online e em produtos diversos.
Nada se faz sozinhas e aqui registamos as inúmeras parcerias que fomos criando e sedimentando ao longo destes 25 anos, tais como o Governo Regional, associações da área e outras, associadas, voluntárias e amigas da causa.
Na génese desta Associação e ideal de ideário esteve e está uma mulher de nome – Clarisse Canha – feminista de convicção e de coração. Mulher, mãe, esposa e profissional dinâmica, astuta, perseverante, livre de espirito e de ação, profundamente igual a ti, a mim e a nós.
Todos e todas devem homenagear esta mulher, personalidade de caracter, detentora de um poder de ação e persuasão único, próprio e exemplar ao longo destes 25 anos, fazendo do seu pensamento uma devoção ao serviço dos direitos das mulheres e do progresso nas ilhas e que decididamente nos ensina todos os dias que o futuro é já amanhã e em conjunto somos mais fortes e assertivas.
Porque não dizê-lo – é a matriarca da Igualdade nos Açores pela sua constante e acutilante luta na reivindicação desta Igualdade.
É um autêntico pilar de congregação de vontades, de ideias, inovando, terminando e recomeçando a luta, sempre que se justifica, acreditando sempre ser possível.
Sem qualquer pudor, registo que é uma verdadeira inspiração e um privilégio trabalharmos a seu lado.
A UMAR é hoje uma associação que se reclama de um feminismo comprometido socialmente, empenhada em despertar a consciência feminista na sociedade açoriana, congregando gerações e ligando as «velhas causas com as novas causas», como seja a luta contra a Violência Doméstica; Paridade nos órgãos de decisão política, envolvimento internacional na Marcha Mundial da Mulher e os 16Dias de Ativismo Contra a Violência de Género.
A direção da UMAR- Açores combina hoje uma nova geração de mulheres com sonhos e anseios ainda por concretizar no âmbito da igualdade de género com mulheres que viveram os tumultos dos anos 70. Ambas criam elos e pontes de assertividade, na certeza porém de que nos próximos 25 anos erradicaremos fenómenos que tanto têm flagelado as mulheres na nossa sociedade, há que trabalhar arduamente para aprofundar os direitos das Mulheres.
Bem-haja a todos e a todas.
 
Maria José Medeiros Carreiro Raposo
Presidente da UMAR Açores
Associação para a Igualdade e Direitos das Mulheres

 
Publicado na Página IGUALDADE XXI no jornal Diário Insular de 11 de Novembro de 2017

 


segunda-feira, 3 de setembro de 2012

A afirmação das mulheres na pesca artesanal


As questões de género, as discriminações e desigualdades, afectam as mulheres nas diferentes áreas da sociedade. Esta noção tem levado a UMAR a desenvolver linhas de acção e projectos integrando a visão de género e a perspectiva feminista de “empoderamento” das mulheres, promovendo o seu reconhecimento e valorização, como no caso das mulheres na pesca.

A acção da UMAR nos Açores com vista a combater a invisibilidade e promover a igualdade e a valorização das mulheres na pesca, decorre desde o início de 2000, ganhando maior alcance na parceria com associações da pesca no projecto EQUAL Mudança de Maré. Confirmou-se que as mulheres estavam lá, na pesca, mas não eram visíveis. A sua actividade não era valorizada, nem reconhecida.

Outras parcerias têm vindo a acontecer como a parceria com Descalças Cooperativa Cultural, no âmbito da qual se têm desenvolvido actividades como o filme Mulheres na Pesca de Maria Simões, filmado em 2011, numa co-produção de Descalças e UMAR Açores, o qual tem vindo a ser apresentado em diferentes espaços na Região e no Continente Português.

Numa primeira fase, a acção centrou-se no combate à invisibilidade promovendo a valorização do papel das mulheres na pesca e a igualdade entre homens e mulheres, e de seguida na identificação da presença e papeis das mulheres na pesca, com vista ao reconhecimento da sua presença, particularmente na pesca artesanal. Neste contexto tem vindo a realizar-se trabalho em rede e de estudo sobre a situação das mulheres na pesca nos Açores – investigação acção participada - em que as mulheres são protagonistas activas.

As mulheres afirmam-se e, entretanto emergiram duas associações: Associação de Mulheres de Pescadores e Armadores da ilha Terceira (AMPA - IT) e a Ilhas em Rede - Associação de Mulheres na Pesca nos Açores, dando estrutura orgânica à afirmação e visibilidade das mulheres.

O intercâmbio de experiências e de conhecimentos tem sido uma componente forte desta actividade, com encontros inter-ilhas, acções formativas e workshops incluindo a realização de oficinas de Teatro do/a Oprimido/a  (TO) com a presença activa de mulheres da pesca.

O intercâmbio vai para além da região e fronteiras. A nível europeu: integração na Rede europeia de mulheres na pesca AKTEA e no Conselho Consultivo Regional das Águas Ocidentais Sul CCR-Sul.

Podemos assinalar, neste percurso, um conjunto de actividades - projectos e produtos da UMAR Açores e acontecimentos nesta área durante os últimos anos, com início em 2003 no Mudança de Maré até à presente data com o projecto Caminhos em Terra e no Mar, de cujo relatório final se destaca: “As mulheres, bem como o importante papel que estas desempenham no sector piscatório, são hoje bem mais (re)conhecidas dentro e fora de portas do que eram há uns anos atrás quando a UMAR Açores  resolveu trabalhar sobre a realidade e a consciência social relativamente à igualdade de direitos e oportunidades no sector. Sucedendo-se aos projectos “Mudança de Maré” e “As mulheres na Pesca dos Açores”, este “Caminhos em Terra e no Mar “, que agora chegou ao fim, poder-se-á considerar a 3ª etapa do desenvolvimento do movimento de valorização das mulheres na pesca nos Açores”.

Clarisse Canha - UMAR Açores
 
Publicado na Página Igualdade XXI no Jornal Diário Insular de 1 de Agosto de 2012
  

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Mulheres continuam a ser as grandes vítimas de violência

CLARISSE CANHA, LÍDER DA UMAR NOS AÇORES

A UMAR-Açores promove na ilha Terceira uma ação sobre violência de género. O tema é assim tão grave na nossa sociedade que justifique uma abordagem específica?
Começaremos por algumas referências ao Estudo sobre a Violência de Género nos Açores realizado em 2008 assim como o Plano Regional de Combate à Violência Doméstica (PRCVD). Este Plano considera que o "inquérito sobre a Violência de Género nos Açores" possibilitou um melhor conhecimento sobre a prevalência real do fenómeno na Região, bem como, confirmou que nos Açores, como em qualquer outro lugar, a violência doméstica, vitima diversos sub-universos de pessoas, sejam adultas ou crianças, sejam do sexo masculino ou feminino. Atendendo que, no entanto, as mulheres continuam a ser o grupo onde se verifica a maior parte das situações de violência doméstica, assumindo-se assim, claramente, como uma questão de violência de género.
A escolha deste tema para este Encontro Formativo tem a ver com o facto de que a violência de género é uma realidade que afeta, com grande peso, a nossa sociedade. A consciência do problema leva-nos a intervir no sentido da sua erradicação, assim como no plano do apoio às vítimas, neste caso as mulheres, as mulheres vitimas de violência de género, sobretudo a violência doméstica.
O Encontro Formativo "Violência de Género: Saber e Agir" - Perspetivas atuais da intervenção e investigação em violência de género, do dia 22 de outubro, na Terceira, vai pois debater esta problemática do ponto de vista da intervenção, aprofundando conhecimentos (saber) e a intervenção (agir).
Quais as principais formas de violência de género identificadas nos Açores e a que causas principais estão associadas?
Nos Açores uma das principais formas de violência de género acontece no âmbito da família e nas relações de intimidade - a violência doméstica.
A UMAR está a desenvolver um projeto sobre igualdade e diversidade, no qual se enquadra a temática da violência de género. Que entraves principais ainda hoje se detetam na nossa sociedade no respeito pela diversidade e na promoção da igualdade?
O Projeto Igualdade e Diversidade pretende promover formação, debate e reflexão sobre as questões da igualdade de género, através de Temas e Encontros Regionais em 3 ilhas: São Miguel, Terceira e Faial. A iniciativa na Terceira, inclui o Encontro Formativo do dia 22 de outubro, aberto às pessoas interessadas que se podem inscrever. No dia seguinte, dia 23, decorre um encontro de reflexão da UMAR-Açores onde nos vamos debruçar sobre a experiência da UMAR na área da violência doméstica - violência de género no espaço doméstico.
A UMAR vem a trabalhar desde há vários anos as questões relativas à promoção da mulher. A evolução tem sido positiva ou nem por isso?
A evolução das últimas décadas sobre a igualdade entre as mulheres e os homens deu-se a nível das leis, da realidade e das mentalidades, numa grande caminhada protagonizada por movimentos sociais como o movimento feminista, abrindo-se caminhos e novos espaços de intervenção. A afirmação dos direitos das mulheres e da igualdade entre homens e mulheres (igualdade de género) requer ainda mais ação, pelo que projetos como este continuam a fazer falta para aprofundar os caminhos com vista a uma sociedade justa e igualitária.

Entrevista Publicada no Jornal Diário Insular de 14 de Outubro de 2010