quarta-feira, 4 de julho de 2012

IX NOITE DE IGUALDADE - Mulheres na pesca


IX NOITE DE IGUALDADE

MULHERES NA PESCA

Sexta-feira 13 de Julho de 2012 - 20 Horas
UMAR Açores / Cipa - Delegação da Ilha Terceira
Recreio dos Artistas em Angra do Heroísmo

Apresentação e debate do documentário
"mulheres na pesca" de Maria Simões (4)
co-produção Descalças e UMAR Açores

São convidadas:
Alison Neilson (1)
Carmen Ficher (2)
Sara Silveira (3)

PARTICIPE E AJUDE-NOS A DIVULGAR

OBRIGADA


(1) Alison Neilson é pós-doutorada pelo Departamento de Ciências Agrárias da Universidade dos Açores e responsável pelo projecto EDUMAR - Perspectivas Sobre o Mar e a Vida Marinha, Cetáceos e Turismo nos Açores e Terra Nova. Tem trabalhado com as comunidades locais de pescadores nos Açores para entender como as pessoas interpretam o mar e como este conhecimento é valorizado e utilizado em educação, política e sustentabilidade. É coordenadora de RCE Açores (Centro Regional de Peritos em Desenvolvimento Sustentável nos Açores, na programa da Nações Unidas para a Década da Educação para o Desenvolvimento Sustentável).

(2) Carmen Costa Fernandes Ficher foi gameleira, por influência do seu marido armador, durante aproximadamente quinze anos. Foi uma das fundadoras da AMPA IT – Associação de Mulheres de Pescadores e Armadores da Ilha Terceira, tendo sido a primeira Presidente da Assembleia-geral da associação. Actualmente, orienta outras mulheres gameleiras e coopera quando necessário, sendo que muitas das vezes participa na actividade.

(3) Sara Lima Silveira é licenciada em Engenharia e Gestão do Ambiente com especialização em Gestão e Conservação da Natureza e Mestre em Engenharia do Ambiente. Desde 2009 que é técnica superior na Secretaria Regional do Ambiente e Mar e é actualmente Presidente da Direcção da AMPA IT - Associação de Mulheres de Pescadores e Armadores da Ilha Terceira desde 1 de Junho de 2011.

(4) Sinopse - Antigamente dizia-se que uma mulher no porto era uma prostituta. Hoje, já não é assim. As mulheres na pesca nos Açores representam uma percentagem importante no sector e procuram a sua cada vez maior visibilidade, desejando a igualdade no trabalho.
Encontram-se em quase todas a tarefas da pesca (desde os preparativos em terra, à extracção, à compra e venda, à indústria conserveira, à investigação), em quase todas as ilhas, e há quem as divida entre pescadoras de terra e de mar.
Durante um ano, andei à pesca de algumas destas mulheres nas ilhas do Pico, Faial, Terceira e São Miguel, sem nunca ter entrado no mar, como se , desta vez, ficasse, para sempre, prisioneira na doca.

Doc PT cor 54’
Co-produção: Descalças/Umar-Açores

REALIZAÇÃO e CÂMARA Maria Simões
SOM Tiago Melo Bento, Luís Bicudo, Carmen Ficher, Mariana Botelho, João Engrácio, Fátima Ramos
MONTAGEM Isís Lopez, Maria Simões
SOM ESTÚDIO gravação Tó Garcia voz off Maria Simões
APOIOS Direcção Regional do Trabalho e Solidariedade Social, Corredor - Associação Cultural, RTP/RDP Açores

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Destaque do mês de Junho de 2012

MARÍLIA CORDEIRO


Por Mariana Ornelas (*)

            Marília Fátima Martins Cordeiro, natural da ilha Terceira, vinte e nove anos de idade é uma das mulheres Bombeiras Voluntárias da ilha Terceira.

            Licenciada em Ciências da Educação, Marília trabalha actualmente como monitora de Inserção Social na Associação Cristã da Mocidade da Ilha Terceira (ACM).

            Quando perguntei qual teria sido a razão de voluntariar-se para os Bombeiros, esta respondeu logo de imediato que a sua motivação foi a dinâmica da profissão e o “bichinho que tinha dentro de si que a chamava para ser bombeira”.

De facto, o que mais me impressionou ao conhecer a Marília foi o entusiasmo com que esta falava da sua vida enquanto Bombeira. Apercebi-me instantaneamente, que a Marília era uma Bombeira por vocação. Nem as dificuldades que enfrentou, após a sua aceitação nos Bombeiros Voluntários move-a de atingir o seu sonho.

Quando a Marília entrou para os Bombeiros em 2003, as infra-estruturas não estavam preparadas para receber mulheres. Não existiam vestuários nem balneários para as mulheres, logo estas tinham que despir-se e vestir-se sem o mínimo de privacidade, facto que causava grande transtorno. No final de 2003, criaram-se as infra-estruturas necessárias para as mulheres, no entanto os vestuários continuam a ser demasiado pequenos em comparação com os dos homens.            

Além das dificuldades estruturais, também existem as da profissão e as culturais, facto que a Marília não quis deixar de realçar. “Quando se é uma mulher Bombeira, é necessário ser muito persistente e ter muito amor e vocação pela profissão, pois esta é muito dura fisicamente e acabamos por abdicar de alguns momentos com a nossa família, visto passarmos muitas horas a trabalhar. Para além disso, a sociedade em geral ainda associa esta profissão ao masculino, a aceitação a nível da população é difícil, as pessoas acham muito estranho ver uma mulher Bombeira”.

Apesar de haver um maior número de mulheres no ramo a vida de bombeira é muito difícil levando a que muitas acabem por desistir. A falta de apoio familiar, muitas horas e dias de trabalho, a população não estar sensibilizada para ver uma mulher bombeira, a nível pessoal a maioria dos namorados ou maridos não se sentirem bem com o facto da sua mulher trabalhar num mundo maioritariamente masculino, são as principais razões que a Marília apontou para o facto de muitas das suas colegas terem abandonado tal profissão.

Marília, também sentia algumas destas dificuldades, tendo-as ultrapassado, com o profissionalismo que é exigido à profissão, ignorando preconceitos ou suposições. Integrou-se na equipa procurou o seu espaço e entregou-se de corpo e alma à dinâmica de trabalho. Durante este processo, refere que nunca se sentiu discriminada pelos colegas, sempre houve muito companheirismo.

Neste momento e devido à sua vocação força de vontade e profissionalismo, a sua credibilidade nunca foi posta em causa. Os seus colegas masculinos muitas vezes acabam por deixa-la actuar como forma de demonstrar o seu voto de confiança. Esta refere “ Se formos profissionais não surge quaisquer problemas nesta ou em alguma profissão”.  

      Ao longo da entrevista, Marília sempre realçou o quanto se sente feliz pelo facto de nunca ter desistido, esta menciona “ Sinto-me muito feliz, nunca deixarei esta profissão, mesmo quando tiver filhos nunca desistirei. A família Bombeiros Voluntários torna-se a nossa segunda família. Esta família ensinou-me imenso, demonstrou o que era o companheirismo, a confiança uns nos outros e valores. Ser bombeira é uma aprendizagem dura mas externamente gratificante. O enriquecimento pessoal é enorme, os valores que aprendemos nesta profissão são para toda uma vida”.


 (*) Mariana Ornelas
Psicóloga da UMAR Açores / CIPA
Delegação da ilha Terceira

Publicado na Página Igualdade XXI no Jornal Diário Insular de 22 de Junho de 2012

SABIA QUE...

Imagem cedida pelo autor
Mariana Ornelas (*)

            Não foi só a padeira de Aljubarrota que mostrou bravura a combater os espanhóis na respectiva batalha. Temos ao longo da História de Portugal, desde das Invasões Espanholas, às Invasões Napoleónicas, às Lutas Liberais, à Primeira Republica, ao Estado Novo e à Revolução de Abril, inúmeros casos de mulheres Portuguesas que perante crises lutaram pelas suas vidas, famílias, pela sua segurança, liberdade e pelos seus direitos.

            O caso mais famoso na nossa ilha Terceira é o caso da Brianda Pereira. Como todos nós sabemos, Brianda Pereira foi uma das responsáveis pela expulsão dos espanhóis, quando da invasão em 1581 na Baía da Salga.  

            Diz a história, que Brianda Pereira pertencia a uma das famílias mais nobres da cidade de Angra. O seu pai foi juiz ordinário da Câmara de Angra em 1553 e descendia de Pero Anes de Alenquer, um dos primeiros colonos da ilha Terceira.

Brianda Pereira mudou-se para a baía da Salga após o seu casamento. Casou-se com Bartolomeu Lourenço, que era dono de muitas terras e tinha uma abastada casa agrícola na zona litoral do Porto Judeu. A casa do casal situava-se na arriba da baía da Salga, onde residiram com os seus filhos até 25 de Julho de 1581.

            A 25 de Julho de 1581, no contexto da luta entre partidários de Filipe II de Espanha e de D. António I de Portugal, ocorreu nesse dia na baía da Salga, a famosa batalha da Salga.  

A batalha iniciou-se pelo desembarque de uma força espanhola que de imediato incendiou as searas e as casas existentes nas imediações, entre as quais muito provavelmente a de Brianda Pereira, aprisionando os homens que encontrou. Entre os prisioneiros figurava Bartolomeu Lourenço, que se encontraria ferido.

Nesse momento, Brianda Pereira fugindo com seus filhos e a ver provavelmente a sua casa e as searas em chamas e o seu marido ferido e prisioneiro dos espanhóis encheu-se de coragem e lançou as seus toiros em tropel sobre os espanhóis tendo estes após o sucedido, iniciado a sua retirada. A partir daqui estava lançado o mito de Brianda Pereira, tornando-se uma heroína.

Muito mais tarde, com a ajuda da muito bem oleada máquina de propaganda do Estado Novo, fizeram de Brianda Pereira uma figura popular, particularmente por apelar à heroicidade dos habitantes da ilha Terceira e assim alimentar o sentimento nacionalista e independentista Português.

No entanto, não desprezando o heroísmo de Brianda Pereira, esta foi mais uma das muitas demonstrações de coragem que uma mulher faz com o objectivo de proteger-se a si e há sua família. No momento da batalha, ao ver o seu marido ferido e prisioneiro dos espanhóis e ao ver-se sozinha a zelar pela segurança dos seus filhos, esta não pensou duas vezes em agir e elaborar tal estratégia. Qual seria a mulher que não faria o mesmo?


(*) Mariana Ornelas
Psicóloga da UMAR Açores / CIPA
Delegação da ilha Terceira


Publicado na Página Igualdade XXI no Jornal Diário Insular de 22 de Junho de 2012

quinta-feira, 24 de maio de 2012

As Vozes de Maio


Mariana Ornelas (*)

            Com o surgimento da Re­volução Industrial nos séculos XVIII e XIX, as pessoas pas­saram a trabalhar horas infinitas em fábricas.

A maioria dos trabalhadores era mulheres e crianças, pois eram mais baratos. De facto, até à primeira metade do séc. XIX, 70% da mão-de-obra utilizada na indústria era composta por mulheres e crianças, com a finalidade de poupar nos salários. A abundante presença de crianças explica-se também pela maior facilidade de imposição de disciplina.

O trabalho nas fábricas e o desconhecimento legal de direitos elementares suscitaram entre os operários um sentimento de insatisfação e de descontentamento, que se manifestou de modo violento. Deste modo, na década de quarenta e cinquenta do século XIX surgiram as primeiras lutas das trabalhadoras, sendo uma das primeiras queixas, a realidade contra o desemprego em consequência das frequentes crises industriais. As primeiras manifestações operárias que conhecemos na revolução industrial são contra as máquinas, nas quais o operário via um competidor (máquina) que favorecia a descida dos salários e provocava o desemprego, facto que não deixa de ser muito interessante tendo em conta a nossa actualidade. 

É neste contexto que surge a manifestação do dia 8 de Março de 1857 esta foi uma das mais significativas, pois teve como consequência a morte das 130 operárias tecelãs. Este acto totalmente desumano nunca foi esquecido entre os trabalhadores/ras da época e foi um dos acontecimentos que veio originar o 1º de Maio.

 O 1º de Maio surgiu no seguimento de uma manifestação que ocorreu em 1886 na cidade de Chicago, Estados Unidos da América. A manifestação tinha como finalidade reivindicar a redução de trabalho para 8 horas diárias e teve a participação de 500 mil trabalhadores­, a maioria eram mulheres. Nesse dia, devido a tal manifestação teve também início uma greve geral nos EUA.

 No dia 3 de Maio a polícia entreviu e consequentemente, morreram alguns manifestantes. No dia seguinte, 4 de Maio, uma nova manifestação foi organizada como protesto pelos acontecimentos dos dias anteriores, neste dia, morreram mais doze pessoas e dezenas ficaram feridas. Estes acontecimentos passaram a ser conhecidos como a Revolta de Haymarket. Três anos mais tarde, a 20 de Junho de 1889, a Internacional Socialista reunida em Paris decidiu convocar anualmente uma manifestação com o objectivo de lutar pelas 8 horas de trabalho diário. A data escolhida foi o 1º de Maio, como homenagem às lutas sindicais de Chicago. Em 1 de maio de 1891 ocorre uma manifestação no norte de França e o resultando é novamente a morte de diversos manifestantes. Esse novo drama reforçou ainda mais o dia 1º de Maio como um dia de luta dos trabalhadores e trabalhadoras. Meses depois a Internacional Socialista de Bruxelas proclama o dia 1º de Maio como dia Internacional da reivindicação das condições laborais.

É de realçar o papel da mulher em tais movimentos sociais. A manifestação do dia 8 de Março foi um marco, tendo sido uma das primeiras manifestações da Revolução Industrial, foi o início da luta dos direitos dos trabalhadores e trabalhadoras.

As mulheres de acordo com o relatório sobre a Situação da População Mundial em 2010, do Fundo das Nações Unidas para a População (UNFPA), têm imensa resiliência e devido a tal facto tentam ultrapassar as dificuldades em momentos de crise. O documento mostra também que as mulheres que sobreviveram a momentos difíceis, trabalharam para que as sociedades estejam futuramente mais preparadas para as proteger a si e à sua família. No mundo as mulheres continuam a ser as principais agentes na prestação de cuidados. Devido a tal facto, estas acabam por cuidar das pessoas que foram vítimas de abuso e de confrontos sociais. Ao ver o sofrimento humano acabam por querer lutar por um futuro melhor.

Este relatório demonstra o que possivelmente as cerca de 70% das operárias sentiam nos meados do século XIX, estas mulheres queria proteger-se e ter tempo para si, para a sua família e para os seus filhos. Estas não queriam ver os seus filhos a trabalhar tal como as mães infinitas horas nas fábricas.

A memória destas pessoas que lutaram por uma sociedade melhor não deve ser esquecida, a suas mortes não poderão ter sido em vão.

 Para que as “Vozes de Maio” nunca sejam esquecidas e nunca sejam caladas, as mulheres actuais deverão continuar a lutar pelos seus direitos, pois infelizmente em momentos de crise, somos nós e as crianças, as mais sacrificadas. 


 (*) Mariana Ornelas
Psicóloga da UMAR Açores / CIPA
Delegação da Terceira


Publicado na Página Igualdade XXI no Jornal Diário Insular de 23 de Maio de 2012


Testemunho de uma trabalhadora da Revolução Industrial



Carta de Betty Harris, 37 anos, denunciando as terríveis condições de vida dos/as trabalhadores/ras durante a Revolução Industrial:


“ Casei-me aos 23 anos, e foi somente depois de casada que desci à mina; não sei ler nem escrever. Trabalho para Andrew Knowles, da Littel Bolton (Lancashire). Puxo pequenos vagões de carvão; trabalho das 6 da manhã às 6 da tarde. Há uma pausa de cerca de uma hora, ao meio-dia, para almoço; dão-me pão e manteiga, mas nada para beber. Tenho dois filhos, porém eles são jovens demais para trabalhar. Eu puxava estes vagões, quando estava grávida. Conheci uma mulher que voltou para casa, lavou-se e deitou-se, deu à luz e retomou ao trabalho menos de uma semana depois. Tenho uma correia à volta da minha cintura e uma corrente que passa por entre as minhas pernas e ando sobre as mãos e pés. O caminho é muito íngreme, e somos obrigados a segurar uma corda – e quando não há corda, agarramo-nos a tudo o que podemos. Nas minas onde trabalho, há seis mulheres e meia dúzia de rapazinhos e rapariguinhas; é um trabalho muito duro para uma mulher. No local onde trabalho, a cova é muito húmida e a água abundante. Um dia a água chegou até à minha cintura. E o que cai do tecto é terrível! As minhas roupas ficam todas molhadas, todo o dia. Nunca fiquei doente na minha vida, a não ser na época dos partos. Estou muito cansada quando volto à noite para casa, às vezes adormeço antes de me lavar. Não sou tão forte como dantes, não tenho mais a mesma resistência no trabalho. Estes vagões arrancam-me a pele; a correia e a corrente são ainda piores quando se espera uma criança”.


 Para que a História não se repita!

Publicado na Página Igualdade XXI no Jornal Diário Insular de 23 de Maio de 2012 

As Mulheres e o 25 de Abril


Mariana Ornelas (*)

Celebramos, no passado dia 25 mais um ano de Liberdade Democrática, Social e Cultural. O 25 de Abril foi um dos acontecimentos históricos mais relevantes na vida do/as Portuguese/as. Com a revolução surgiu a Liberdade, a Democracia mas não só, surgiram também os direitos dos trabalhadores, os direitos das mulheres, o serviço nacional de saúde, o serviço nacional de educação, o direito à justiça, ou seja, com a revolução de Abril nasceu também o Estado Social.

O Estado Novo foi instaurado em Portugal em 1933 e terminou a 25 de Abril de 1974. Durante este período a igualdade de oportunidades entre as pessoas era aquém do que é actualmente, isto porque devido ao seu cariz conservador e tradicionalista a vida das pessoas era dificultada ou facilitada de acordo com o seu poder económico, condição social, convicções políticas, religiosas ou ideológicas, instrução, território de origem, orientação sexual, sexo…

As mulheres estavam associadas aos papéis de donas-de-casa, mãe e companheira, e pouco mais. Poucas trabalhavam e aquelas que o faziam, ganhavam cerca de 40% menos do que os homens. A lei do contrato individual do trabalho permitia que o marido pudesse proibir a mulher de trabalhar fora de casa. Se a mulher exercesse actividades lucrativas sem o consentimento do marido, este podia rescindir o seu contrato de trabalho junto da entidade empregadora. As mulheres não tinham acesso às seguintes carreiras: magistratura, diplomacia, militar e polícia. Certas profissões (por ex., enfermeira, hospedeira do ar) implicavam a limitação de direitos, como o direito de casar.

O único modelo de família aceite era o casamento entre homem e mulher. A mulher, face ao Código Civil, podia ser rejeitada pelo marido no caso de não ser virgem na altura do casamento O casamento católico era indissolúvel (os casais não se podiam divorciar). A família era dominada pelo homem, este era o único administrador dos bens comuns do casal. Estava na lei, que “pertence à mulher a vida em comum e o governo doméstico”. Havia distinção entre filhos legítimos e ilegítimos (nascidos dentro e fora do casamento): os direitos de uns e outros eram diferentes. Mães solteiras não tinham qualquer protecção legal. O marido tinha o direito de abrir a correspondência da mulher. O Código Penal permitia ao marido matar a mulher em flagrante adultério (e a filha em flagrante corrupção), sofrendo apenas um desterro de seis meses. Até 1969, a mulher não podia viajar para o estrangeiro sem uma autorização do marido ou do pai.

Em questões de cidadania e liberdade política, até final da década de 60, as mulheres só podiam votar quando fossem chefes de família e possuíssem um curso médio ou superior. Em 1968 a lei estabeleceu a igualdade de voto para a Assembleia Nacional de todos os cidadãos que soubessem ler e escrever. O facto de existir uma elevada percentagem de analfabetismo em Portugal, que atingia sobretudo as mulheres, determinava que, em 1973 apenas houvesse 24% dos eleitores recenseados. As mulheres apenas podiam votar para as Juntas de Freguesia no caso de serem chefes de família (se fossem viúvas, por exemplo), tendo de apresentar atestado de idoneidade moral.

 Em relação à saúde sexual e reprodutiva os médicos não estavam autorizados a receitar contraceptivos orais. O aborto era punido em qualquer circunstância, com pena de prisão de 2 a 8 anos. Cerca de 43% dos partos ocorriam em casa, 17% dos quais sem assistência médica; muitos distritos não tinham maternidade. A mulher não tinha o direito de tomar contraceptivos contra a vontade do marido, pois este podia invocar o facto para fundamentar o pedido de divórcio.

Estes são apenas alguns exemplos da situação difícil em que a mulher Portuguesa se encontrava, e que durou até ao dia 25 de Abril de 1974, altura em que a democracia chegou a Portugal. Hoje a mulher já tem um papel mais activo na sociedade, a igualdade de oportunidades entre homens e mulheres aumentou e tudo graças à Revolução de Abril. Deste modo, como mulher, agradeço a todos que directamente ou indirectamente colaboraram e participaram na Revolução de Abril e com isso terem melhorado a vida de todas as mulheres. 

Para finalizar e para que a História não se repita, é necessário que os cidadãos e cidadãs nascidos depois do 25 de Abril de 1974 tenham conhecimento deste momento histórico e que cresçam com a consciência de que as conquistas democráticas e os mais básicos direitos de cidadania são filhos directos de tal Revolução. O momento crítico que o país atravessa tem vindo a ser aproveitado para promover a herança material e económica e com isso esquecer tais direitos e ideologias de igualdade. A ignorância sobre a nossa História e simultaneamente com a crise económica actual pode significar um retrocesso sério, inédito e porventura irreversível.

(*) Mariana Ornelas
Psicóloga da UMAR Açores / CIPA
Delegação da Terceira

Publicado na página Igualdade XXI no Jornal Diário Insular a 4 de Maio de 2012

“UMA FLOR POR AMOR, UMA FLOR CONTRA A DOR, UMA FLOR CONTRA O RACISMO!”


Dia Internacional da Luta pela Eliminação da Discriminação Racial


Exemplo de uma das mensagens que acompanhavam as 700 flores distribuídas.


No passado dia 21 de Março assinalou-se o Dia Internacional da Luta pela Eliminação da Discriminação Racial em parceria com a AIPA – Associação dos Imigrantes nos Açores e o Gabinete de Assessoria ao Jovem da Praia da Vitória (Direcção Regional da Juventude).

Foram distribuídas 700 flores em Angra do Heroísmo e Praia da Vitória e todo/as foram convidado/as a participar na iniciativa reutilizando as flores distribuídas ou criando outras (artificiais, em papel, ou desenhadas) acompanhadas de mensagens contra o racismo e xenofobia, para posterior colocação num espaço público, incentivando outras pessoas a fazerem o mesmo. Solicitávamos ainda que fotografassem o gesto e nos enviassem por e-mail para posterior disponibilização através da internet no endereço http://www.facebook.com/events/242571559168309/

Para além das flores que foram distribuídas pelas técnicas e voluntárias da AIPA e UMAR Açores, participaram directamente na iniciativa cerca de 400 pessoas.

Em nome de todas as entidades envolvidas, gostaríamos de agradecer a disponibilidade para colaborar com a iniciativa a todas as pessoas que participaram a título individual bem como às seguintes instituições: EB1/JI do Pico da Urze, São Pedro; EB1/JI Professor Maximino Fernandes Rocha, Terra Chã; EB1,2,3/JI Francisco Ornelas da Câmara, Praia da Vitória; EB1/JI da Fonte Bastardo; EB1/JI Pd. Lino Vieira Fagundes, Lajes; EB1/JI do Porto Martins; EB1/JI de Santa Rita; EB1/JI de São Brás; Creche e ATL “Olhar Infantil”, Vilanova; Centro Social e Paroquial da Ladeira Grande; Bombeiros Voluntários de Angra do Heroísmo; P.S.P. de Angra do Heroísmo; Associação de Pais e Amigos da Criança Deficiente da Praia da Vitória; Cáritas da Ilha Terceira; Caixa Económica da Misericórdia – Agência da Praia da Vitória e funcionário/as da Pronicol.

Publicado na página Igualdade XXI no Jornal Diário Insular de 4 de Maio de 2012.