quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

WORKSHOP UMAR/TERCEIRA Capacitar a terceira e a quarta idade


“Discriminação em função da idade e do género, no contexto da discriminação múltipla” - o título do workshop promovido pela UMAR/Terceira, amanhã, no auditório da Escola Superior de Enfermagem de Angra do Heroísmo, quer colocar no discurso público a “vulnerabilidade” que recai sobretudo nas idosas mas também nas cada vez maiores terceira e quarta idades.

Amanhã, ao longo do dia, com início às 9H30, o auditório da Escola Superior de Enfermagem de Angra do Heroísmo (ESEnfAH) vai ser palco para o debate das discriminações, não de raça ou etnia, nem de orientação sexual, mas sim de idade e de género.
A formação, da Associação para a Igualdade e Direitos das Mulheres (UMAR Açores), delegação da ilha Terceira em parceria com a Universidade dos Açores e ESEnfAH, vai ser orientada por Teresa Anjinho, doutoranda da Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa, licenciada em Direito pela Universidade de Coimbra, com formação em Direito Criminal Europeu (Universidade de Maastricht / Holanda).
A investigadora refere que a principal mensagem que pretende transmitir é a da “capacitação” junto da “terceira e da quarta” idade.
“A pessoa idosa, pelo facto de ser mais idosa, não é menos pessoa. É um cidadão de pleno direito e isso significa que pode e deve reivindicar em situações de discriminação”.
A sua formação em direito remete esta questão sociológica para uma leitura em termos de direitos humanos: “na Declaração Universal dos Direitos Humanos todos nascemos livres e iguais em direitos. Isto não se altera com a idade”.

Quebrar estereótipos

“À semelhança do que aconteceu com as mulheres durante muito tempo, em que estas nunca reconhecerem os seus direitos – fruto de práticas sociais e de estereótipos profundamente radicados em modelos patriarcais de organização social – isso também acontece, muitas vezes, com as pessoas idosas. Têm direitos, mas não os reivindicam. Porquê? Porque estão agarrados aos estereótipos que os consideram como inúteis e desnecessários”, explica a docente universitária.
Segundo reitera é preciso “consciencializar” para o facto de que o idoso “é um cidadão de pleno direito que deve continuar a participar em sociedade e esta deve reconhecê-lo como tal”.
Uma afirmação que parece consensual mas para a qual, defende, “ainda existe muito pouca consciencialização”.
Teresa Anjinho gostaria que este problema fosse colocado no “discurso público”, com a mesma intensidade das abordagens sobre o género, a orientação sexual, raça ou a etnia.

Vulnerabilidade da idosa

A especialista em direito internacional não tem dúvidas da existência de uma “vulnerabilidade das mulheres idosas”, considerando que a “abordagem integrada” do género/idade, além de “muito interessante” é “muito conveniente” actualmente.
Isto, explana, “perante a realidade de que este processo de envelhecimento é um processo heterogéneo que, apesar de ter um conjunto de elementos comuns, afecta desproporcionalmente as mulheres”.
“A minha atenção é chamar a atenção para a questão da vulnerabilidade das mulheres idosas fruto de um certo alargamento, extensão das desigualdades de género, que afectam desproporcionalmente as mulheres do longo do ciclo de vida”.

Aprofundar estatísticas

Reconhecendo “não se tratar de “tema muito comum”, a estudiosa refere que a discriminação junto dos idosos são normalmente tratadas de forma “independente e estanque”.
Isto porque “uma das grandes falhas” para quem estuda estas matérias “é que as estatísticas não estão desagregadas por sexo e idade. Ou se centram na questão do sexo, ou na da idade, por exemplo, não se conseguindo apurar conclusões integradas”.
Uma “falha”, menciona reconhecida pelos organismos internacionais: “as próprias Nações Unidas chama constantemente a atenção para a necessidade de que nestes dados estatísticos sejam incluídos indicadores desagregados por sexo e idade”.
“Ou encontram-se muitos documentos que falam de discriminação de género, ou que só falam de discriminação em função da idade, se bem que nesta matéria não encontram muitos, porque só foi objecto de maior estudo mais recentemente”.
“Só o estudo integrado é essencial para poder desvendar formas de discriminação que de outras formas não serão evidentes”.

Nova convenção pró-idosos

Apesar das dificuldades de análise existentes nesta temática, as novas redes sociais, conta Teresa Anjinho, têm ajudado a promover a sua defesa: “existe no próprio facebook um movimento que incentiva à adopção de uma nova convenção para a defesa dos direitos das pessoas idosas”.
No seu entendimento, este instrumento reconhece a “necessidade de uma protecção especial às mulheres de idade e ao seu processo de vulnerabilidade enquanto processo de envelhecimento”.
Uma necessidade, acresce, perante a actual longevidade em que os dados estatísticos internacionais “perspectivam um aumento das populações idosas (…) sendo que, deste aumento, maioritariamente, também existirão mais mulheres idosas do que homens idosos - fruto do facto de as mulheres terem uma esperança média de vida superior em cinco a dez anos à dos homens”.

Formadora com currículo

Teresa Anjinho, natural de Coimbra, possui um vasto currículo e experiência académica em Direito Europeu, tendo frequentado a Universidade de Maastricht (Holanda), participado em vários seminários e conferências, autora de diversas comunicações e de vários títulos sobre direitos humanos e discriminação de género e etnia.
Foi supervisora eleitoral em eleições do Kosovo, na Rússia, da Bósnia e Herzegovina, estagiou na Comissão Europeia e actualmente dedica-se à docência e investigação em várias universidades. Enquadrou a comissão responsável por redigir a Proposta de Lei que adapta a legislação penal Portuguesa ao Estatuto do Tribunal Penal Internacional, colaboradora do Centro de Investigação & Desenvolvimento sobre Direito e Sociedade da FDUNL, investigadora da Antígona – Clínica de Direito da Igualdade e da Discriminação da FDUNL e relatora do “Projecto Farol” sobre as Reformas do Estado - Deloitte Circle (think-tank).

Humberta Augusto
haugusto@auniao.com

Publicado no Jornal A União de 19 de Janeiro de 2011

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Workshop "Discriminação em função da idade e do género, no contexto da discriminação múltipla"


No âmbito do Plano de Actividades da UMAR Açores para o ano de 2011, em parceria com a Universidade dos Açores / Escola Superior de Enfermagem de Angra do Heroísmo e com o apoio da Direcção Regional da Igualdade de Oportunidades, realiza-se no próximo dia 20 de Janeiro de 2011, Quinta-Feira, um Workshop intitulado"Discriminação em função da idade e do género, no contexto da discriminação múltipla".

A Formadora será a Dra. Teresa Anjinho, Doutoranda da Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa, Licenciada em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, com formação em Direito Criminal Europeu, Universidade de Maastricht / Holanda e Mestrado sobre A Violência contra a Mulher na jurisprudência dos Tribunais Internacionais na Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa.

O Workshop realizar-se-á no Auditório da ESEAH - Escola Superior de Enfermagem de Angra do Heroísmo, na Canada dos Melancólicos das 9:30h às 12:30h e das 14:00h às 16:30h.

As inscrições são gratuitas e podem ser enviadas através do Fax: 295 217 861 ou e-mail: umarterceira@gmail.com, até ao próximo dia 18 de Janeiro de 2011 (3ª feira).

Inscrevam-se e divulguem.

A equipa da delegação da Terceira

UMAR Açores / Cipa – Delegação da Ilha Terceira
Edifício da Recreio dos Artistas - Rua da Rosa s/n 1º Andar
9700 Angra do Heroísmo
Telefone: 295 217 860 / Fax: 295 217 861 / Telemóvel: 968687479
E-mail: umarterceira@gmail.com

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Violência de género, saber e agir: Perspectivas actuais da investigação e intervenção feminista

Violência de género, saber e agir:
Perspectivas actuais da investigação e intervenção feminista

Maria José Magalhães*

Decorreu, em Angra do Heroísmo, nos dias 22 e 23 de Outubro, um encontro formativo da UMAR dedicado às perspectivas de investigação e intervenção mais recentes na violência de género. A desconstrução do pensamento misógino e dos comportamentos machistas e sexistas (na sua forma hostil ou subtil) constituiu-se como elemento central neste encontro formativo.
As perspectivas dominantes sobre a masculinidade e a feminilidade e sobre a violência de género nas relações de intimidade conduzem a análises inadequadas do problema e a uma intervenção ineficaz, podendo resvalar para a culpabilização das vítimas e a desculpabilização dos agressores. O sexismo e o machismo consistem em preconceitos que condenam antecipadamente as mulheres e justificam os homens violentos.
Neste encontro, reflectimos acerca de uma perspectiva feminista na compreensão da violência de género, na medida em que esta visão traz uma compreensão mais global e abrangente sobre este grave problema social: não o reduz a comportamentos individuais nem o restringe ao universo familiar, mas explica como a sociedade patriarcal está estruturalmente organizada para a submissão das mulheres no trabalho, na política, na arte, na ciência e, também, na família. Aqui, o feminismo mostra como a família não é uma ilha isolada do resto das relações sociais, é antes uma instituição na teia imbricada das relações interinstitucionais, de classe social, de etnia e de género, onde existe igualmente a hierarquia do poder de género.
O feminismo explica também como a socialização sexista (de todas e todos nós, mesmo das/os investigadoras/es e das/os técnicas/os) se exerce através da linguagem, da educação, da divisão sexual do trabalho, da genderização das profissões, da distribuição desigual das responsabilidades parentais e domésticas, da distribuição desigual dos cargos e do poder de decisão, atribuindo o espaço público aos homens, onde se espera deles competição, assertividade, afirmação, racionalidade, independência, progresso, cultura, e o privado às mulheres, onde lhes são atribuídos a sensibilidade, o cuidar, os afectos, a intimidade, a dependência. Esta divisão sexual do mundo constitui-se como crucial na criação de condições para os homens serem agressores e as mulheres vítimas. Esta separação do mundo em duas metades, além de ser um desperdício de talentos e bem-estar (quanto bailarinos, quantas engenheiras se perdem devido aos estereótipos), é também um campo minado na construção do amor, da paixão, da intimidade, da relação com o ou com a outra. Dela se espera que não pense em si, que seja altruísta, e que, por ser boa, tenha sucesso no espaço privado. Dele se espera que se centre nos seus objectivos (mesmo usando a força se necessário) e seja bem sucedido no espaço público.
Quando uma mulher se enreda num amor com um homem que, a certa altura, mostra indícios de vir a ser violento, tudo lhe diz e a empurra para ignorar os primeiros sinais e, o que é mais perigoso ainda, para investir na relação para que o agressor mude, porque lhe é muito difícil aceitar o fracasso nesta dimensão da sua vida – parece e vai mesmo ficando, também pelas estratégias do agressor, progressivamente isolada, sem amigos/as, família, muitas vezes sem trabalho… As investigações mostram, no entanto, que, faça a vítima o que fizer, o agressor não muda, e, se ela ainda tentar corresponder aos seus desejos, o ciclo da violência tende a agravar-se.
Finalizou-se o encontro com uma referência ao trabalho pioneiro das feministas no que se refere à intervenção com os agressores, apresentando alguns dos estudos que mostraram o impacto destes modelos de intervenção face aos modelos tradicionais. O feminismo, desde há mais de três décadas, vem clamando e desenvolvendo intervenção com homens agressores, até pela imperiosa urgência de romper com a continuidade dos processos de vitimização das relações de intimidade. Mesmo quando se consegue ajudar uma vítima é muito grande a probabilidade daquele agressor repetir o comportamento violento com a sua próxima namorada ou companheira. Por isso, esta intervenção tem de incidir nos pontos nevrálgicos das causas do comportamento violento daquele homem em concreto – a sua misoginia, machismo e sexismo.
Finalmente, este encontro permitiu a partilha de saberes, dúvidas, interrogações e pluralidade de perspectivas entre as diversas equipas da UMAR dos pólos, mostrando (a mim, particularmente) o dinamismo, a juventude, a alegria, a abertura e a inovação destas equipas. Ressalto ainda a profundidade de reflexão, o sentido de historicidade e a serenidade de Clarisse Canha e Maria José Raposo no enfrentamento dos novos desafios que nos/lhes estão colocados.

* Presidente da UMAR
Investigadora do Centro de Investigação e Intervenção Educativas
Docente da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto

Publicado na Página Igualdade XXI do Jornal Diário Insular de 28 de Dezembro de 2010

Necessitamos Voar


Para cada mulher forte cansada de aparentar debilidade,
há um homem débil cansado de parecer forte.

Para cada mulher cansada de ter que agir como tonta,
há um homem agoniado por ter que aparentar saber tudo.

Para cada mulher cansada de ser qualificada como “ser emotivo”,
há um homem a quem se tem negado o direito de chorar e ser “delicado”.

Para cada mulher catalogada como pouco feminina quando compete,
há um homem obrigado a competir para que não se duvide de sua masculinidade.

Para cada mulher cansada de ser um objeto sexual,
há um homem preocupado com sua potência sexual.

Para cada mulher sem acesso a emprego ou a um salário satisfatório,
há um homem que deve assumir o sustento de outro ser humano.

Para cada mulher que desconhece os mecanismos do automóvel,
há um homem que não aprendeu os segredos da arte de cozinhar.

Para cada mulher que dá um passo em direção à sua liberação,
há um homem que redescobre o caminho da liberdade.

NECESSITAMOS DE UMA NOVA HUMANIDADE

A Humanidade possui duas asas:
uma é a mulher, outra é o homem.
Enquanto as asas não estiverem igualmente desenvolvidas,
a Humanidade não poderá voar.

NECESSITAMOS VOAR!


“Agora, mais do que nunca, a causa da mulher é a causa de toda a humanidade”
(B. Boutros Ghali)

Publicado na Página Igualdade XXI do Jornal Diário Insular de 28 de Dezembro de 2010

16 Dias de Activismo Social Pela Eliminação da Violência Contra as Mulheres


“16 Dias de Activismo Social Pela Eliminação da Violência Contra as Mulheres” é uma campanha internacional que decorre entre os dias 25 de Novembro (Dia Internacional pela Eliminação da Violência Contra as Mulheres) e 10 de Dezembro (Dia Internacional dos Direitos Humanos). Pelo meio assinala-se o dia 1 de Dezembro (Dia Mundial de Luta contra a SIDA) e o dia 6 de Dezembro (quando ocorreu o Massacre de Mulheres em Montreal – Canadá), proclamado no Brasil como Dia Nacional de Mobilização dos Homens pelo Fim da Violência contra as Mulheres.
A UMAR Nacional e a UMAR Açores também aderiram a esta campanha com várias actividades e iniciativas. Em S. Miguel realizou-se um debate sobre a Marcha Mundial das Mulheres no Congo “Entre a Violência e a Resistência”, com a presença de Judite Fernandes, Delegada da MMM Portugal. Fizeram-se “Sombras no Chão”, contornos de corpos desenhados no chão em memória das mulheres que sucumbiram vítimas de violência de género, e plantou-se uma árvore no parque da cidade de Ponta Delgada, em referência a todas as mulheres que sofrem maus-tratos em contextos de intimidade. No Faial assinalou-se estes dias com uma exposição, um colóquio e uma peça de teatro. Na Terceira também foram realizadas acções de rua, que consistiram essencialmente na sensibilização da população para esta causa. @s técnic@s da Delegação estiveram nas principais artérias de Angra e da Praia a falar com as pessoas e a distribuir panfletos e cartazes alusivos ao dia e ao âmbito de acção da UMAR Açores. É fundamental que mulheres e homens se unam na luta contra a violência pois só assim se pode conseguir um mundo mais justo.

Rita Ferreira

Publicado na Página Igualdade XXI do Jornal Diário Insular de 28 de Dezembro de 2010

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Eu escolhi viver…

25 de Novembro
Dia Internacional pela Eliminação da Violência Contra a Mulher


Eu escolhi viver…


Eu sou uma mulher como todas as outras. E como muitas outras vi-me enredada na teia dos maus-tratos.
No início nem me apercebi do que estava a acontecer, era muito nova, tinha 20 anos, e deram-se alguns comportamentos que só depois compreendi o que significavam – a pressa para casar, para me ter sob o seu controlo, a critica constante da minha forma de falar, de proceder. Fazia-me sentir condicionada, com dúvidas em relação a mim própria. E o ciúme? Por acaso não me iludi com o mito do ciúme ser sinónimo de amor, como acontece com tantas jovens… desde o início percebi que o ciúme era sinal de insegurança da parte dele.
Ele bebia muito, e quando bebia era bastante agressivo verbal e psicologicamente. Por vezes parecia louco, de algo insignificante fazia uma tempestade num copo de água e eu tinha de me calar e de me submeter. Com o tempo o seu comportamento agravou-se, ele foi-se tornando cada vez mais violento verbalmente – as palavras eram de uma violência extrema, e feriam de forma brutal…
A agressão física veio muito mais tarde, mas a partir desse dia, percebi que nunca mais podia confiar nele. Para mim, amor é sinónimo de confiança e respeito, e isso perdeu-se a partir daquele dia em que me bateu pela primeira vez. Eu soube logo aí que o meu casamento iria acabar um dia, porque não podia permanecer com uma pessoa assim, o que eu não sabia é que ainda levariam muito anos até isso acontecer.
Vivíamos no estrangeiro, e eu tinha conhecimento dos recursos de apoio existentes, mas nunca os procurei… a vergonha levou a melhor. Queria esconder de todos a minha situação, não contava a ninguém, guardava tudo para mim. As minhas colegas de trabalho apercebiam-se, porque eu aparecia várias vezes magoada mas nunca perguntaram nada, não se falava sobre isso. É o mesmo que acontece quando vemos alguém com uma deficiência física que nos choca muito, mas não temos coragem de perguntar “Porque é que tu estás assim? O que é que te aconteceu?”.
Eu dizia ao meu marido que não aceitava o facto de ele me bater, nem de ele beber em excesso, ele respondia-me que tinha de aceitar, tal como as outras mulheres aceitavam, mas eu não me conformava! Cá dentro sentia uma revolta contra aquilo. Não merecia ser tratada assim!
Quando voltámos para a Terceira, pensei que ia ficar mais protegida, perto da minha família, a exercer a minha profissão… mas o comportamento dele piorava a cada dia, e o pavor era o sentimento predominante na minha casa. Eu odiava a minha casa. As nossas filhas também sentiam a tortura psicológica que dominava o dia-a-dia.
Saí de casa algumas vezes, mas aí surgiam os pedidos de desculpa e promessas de mudança, que me faziam regressar… e após breves períodos de bonança, as tempestades voltavam com agressões e ofensas cada vez mais graves. O problema do alcoolismo agravava-se e ele finalmente procurou ajuda. No entanto, mais tarde acabou por se tornar dependente de medicação, que alterava ainda mais o seu comportamento. Muitas vezes senti que corria perigo de vida, e o medo de morrer surgiu em várias situações, mas a esperança na mudança faziam-me ficar mais um dia, mais um mês, mais um ano…
O que mais me magoava era a atitude das outras pessoas: “Então? Ela não sabe o que quer!”, “Porque não o deixa?”, “Não se decide!”, “Se continua a apanhar é porque gosta”. Para mim estes comentários demonstram absoluta ignorância acerca do que é viver a violência conjugal e o condicionamento psicológico a que a mulher é sujeita ao longo dos anos. Não percebem que é muito difícil terminar um casamento, acabar com uma família, há muitas coisas em jogo, muitos factores pesam sendo o medo um dos principais, apesar do desejo absoluto de libertação.
Eu sentia-me doente física e psicologicamente, cheguei a ter reacções que mais tarde considerei que não eram normais. Numa ocasião, após uma agressão andei na rua a deambular sem destino, não sei por onde andei, mas sei que entrei num consultório e o médico analisou a minha ferida e fez um relatório. Saí de lá com o relatório na mão, escondi-o, e nunca mais me lembrei que tinha estado no médico. O desgaste e exaustão eram tais, que já não conseguia lidar com a situação. Já não me reconhecia, com a minha auto-estima completamente em baixo, já não aguentava mais, senti que tinha chegado ao fundo do poço…
Uma frase fez a diferença. Um dia uma amiga, que já tinha vivido a mesma situação disse-me: «Tu queres morrer ou queres viver? Se ficares, vais morrer às mãos dele.» Foi este o clique da mudança. Naquele dia tomei a decisão final, procurei um advogado, planeei a minha saída, e nunca mais voltei… foi o primeiro dia do resto da minha vida, a primeira vez que dormi sem medo em anos. Mas não foi o início da minha paz. Ainda fui perseguida, agredida na rua, e ameaçada de morte. Através das minhas filhas, soube que tinha adquirido armas para me matar. O divórcio foi litigioso, moroso e doloroso… um processo que se arrastou durante cinco anos. Finalmente consegui libertar-me, mas o alívio só surgiu quando ele morreu, devido a doença prolongada.
Sei que muitas mulheres vivem o mesmo. Este testemunho é também para que não se sintam sós, comecem a pensar nelas próprias e não neles. Não pode haver amor onde não há confiança e respeito. Sejam mais fortes que a vergonha, e o medo de dar o passo decisivo… procurem ajuda! Sozinha é muito difícil. Toda a mulher tem direito a viver com dignidade e em paz. Lembrem-se também dos filhos e filhas, que ficam afectados psicologicamente e que isso vai influenciar as suas relações no futuro. Refaçam a vossa vida, mas com cautela, porque o perigo de cair na mesma teia é muito grande. Só com tempo se consegue estabilizar e escolher a pessoa certa, que nos dê valor e nos respeite como pessoas válidas e merecedoras que somos.

M.

Publicado na página Igualdade XXI – Jornal Diário Insular de 25 de Novembro de 2010



SAIBA SE É UM POSSÍVEL AGRESSOR

25 de Novembro
Dia Internacional pela Eliminação da Violência Contra a Mulher

FAÇA UM TESTE
SAIBA SE É UM POSSÍVEL AGRESSOR

É extremamente ciumento das pessoas que prestam atenção à sua companheira?

Tenta controlar os gastos financeiros, os actos e com quem se relaciona socialmente a sua companheira?

Procura transmitir-lhe medo através de determinados olhares ou por acções e gestos tais como: partir ou danificar objectos pessoais ou exibir algum tipo de arma?

Já ameaçou matá-la ou suicidar-se?

É sempre você quem toma todas as decisões?

Proíbe-a de ver ou falar com amigo/as e pessoas da família ou limita os seus movimentos e acções no exterior?

Culpa a sua companheira pelos seus actos violentos?

Já ameaçou matar os seus animais de estimação?

Vexa-a diante de outras pessoas, humilha-a, procura baralhá-la, levando-a a pensar que estará doida?

Impede-a de obter um emprego ou de poder continuar no emprego que tem?
Desincentiva-a a estudar?

Tira-lhe o seu dinheiro ou não lhe dá qualquer informação sobre as receitas e bens do casal?

Quando discutem ameaça tirar-lhe o/as filho/as?

A sua companheira torna-se demasiado calada quando você está por perto, com medo de o fazer zangar-se?

Cancela planos comuns no último momento sem dar justificações à sua companheira?

Tem necessidade de explicar à família ou aos/às amigo/as escoriações e marcas roxas que a sua companheira por vezes apresenta?

Publicado na página Igualdade XXI – Jornal Diário Insular de 25 de Novembro de 2010