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sexta-feira, 13 de março de 2015

TESTEMUNHO

 
Olá a todas as mulheres, em nome dos meus filhos e em meu nome quero chamar a atenção a todas as que estão a sofrer e a viver violência doméstica, por favor não se calem, denunciem! Fui vítima de violência doméstica, com vergonha calei-me durante 10 anos. Graças aos meus filhos e graças a Deus sobrevivi para contar um pouco da minha história. Tive o apoio dos meus filhos, deram-me coragem para denunciar. Fui espancada de várias maneiras: foi na cara, fiquei com o olho negro, fui afogada, levei com o andarilho do meu neto, fiquei com o braço esquerdo negro… Graças a Deus sobrevivi e com vergonha a gente cala-se porque ainda somos culpabilizadas por isso. Uma chamada de atenção também às mulheres que nunca passaram por isso, por favor respeitem, porque deixa muitas marcas e revolta para sempre.
 
Utente da UMAR Açores
 

Publicado na página IGUALDADE XXI no Jornal Diário Insular de 11 de Março de 2015
 


terça-feira, 26 de novembro de 2013

Como me libertei da violência doméstica

 
“Passados três anos venho aqui dar o meu testemunho, com todo o prazer, de como é possível sair de uma situação de violência doméstica.
Nos primeiros tempos, foi muito difícil, com dois filhos menores e o pai sempre a tentar manipulá-los, sempre a usá-los como arma para me atingir, foi muito duro mas valeu a pena todo o esforço, todo o sofrimento, o mais difícil foi dar o primeiro passo, ou seja, sair de casa porque infelizmente como diz o ditado “quem está mal é que se muda” e em Portugal as leis parecem favorecer sempre os agressores.
Não foi fácil deixar para trás o trabalho de dezoito anos e recomeçar tudo do zero, mas com a ajuda da minha família e de todos os profissionais da UMAR, a quem agradeço tanto à minha família como à UMAR todo o apoio e a ajuda que sempre me deram, foi bem mais fácil ultrapassar isto tudo.
Com o passar do tempo sinto-me cada vez melhor, tenho uma liberdade fantástica que não imaginava que existisse, é tão bom não ter ninguém a controlar-me os passos, as palavras, enfim, tudo aquilo que eu fazia.
Hoje sou uma mulher feliz e gostava de deixar aqui o meu conselho ou opinião, como quiserem entender, a todas as pessoas que vivem situações de violência doméstica, o mais frequente é serem mulheres, nunca fiquem presas a uma casa ou a uma relação que não vale a pena e também não arrastem essa relação por causa dos filhos, ou por qualquer outra razão, não vale a pena. Sei bem do que estou a falar sofri muitos anos por todos estes motivos e mais alguns, lutem sempre pelo melhor para os vossos filhos, foi o que eu fiz e agora é muito gratificante ouvi-los dizer “estamos muito melhor assim, foi o melhor que a mãe fez”, sei que é muito difícil mas vale a pena os sacrifícios que temos que fazer para poder viver em paz e liberdade sem agressões físicas e verbais. Não se deixem acanhar pelas consequências que possam surgir não vivam aterrorizadas e lembrem-se sempre que ninguém merece viver assim.
E a quem já viveu situações de violência deixe o passado para trás, bem sei que não é fácil mas acreditem que é o melhor, vivam o presente com toda a intensidade que puderem e façam um favor a si próprias e sejam felizes.
Aproveitem ao máximo e acima de tudo sejam livres porque têm esse direito e a vida é muito curta para viver em sofrimento e nunca se esqueçam que o tempo cura tudo.”
 
Utente da UMAR Açores
 
Publicado na Página IGUALDADE XXI no jornal Diário Insular de 26 de Novembro de 2013.
 


terça-feira, 22 de outubro de 2013

Violência sobre as mulheres


Hoje diz-se que o homem e a mulher vivem numa sociedade moderna, civilizada, justa onde todos em conjunto usufruem dos mesmos direitos e privilégios.

No entanto, em lares a violência doméstica ainda é um problema que afeta crianças, idosos, sobretudo mulheres. Elas são vítimas nas mãos dos seus maridos, companheiros que as agridem com murros, pontapés, que as insultam e humilham, que as forçam a torturas sexuais, só porque se julgam donos dos seus corpos e almas. Estes homens cruéis e desumanos não se lembram, ou não querem lembrar-se, que a violência doméstica é crime.

Para eles as suas mulheres são apenas meros objetos que eles utilizam a seu belo prazer e que quando estão fartos as deitam fora (põe de lado). No meu ponto de vista a mulher de hoje deve ser encarada da mesma forma que o homem. Ela não pode, nem deve ser vítima de qualquer violência, seja ela física, sexual ou psíquica. Ela não pode ser violentada nos seus direitos de mulher, de esposa, de mãe e de trabalhadora. O seu trabalho deve ser merecedor do mesmo respeito que o homem. E se ela se vir humilhada e insultada, deve recorrer de imediato ao tribunal da sua localidade de residência, para que este a possa defender.

Infelizmente também já passei por isso, e às vezes dou por mim a pensar como fui capaz de deixar alguém pensar que tinha todo o direito de espancar, violar, agredir física e psicologicamente. Fui vítima de violência doméstica durante 13 anos e sempre calada, sempre assustada e não podia dizer a ninguém porque era ameaçada de morte. Mas finalmente consegui libertar-me desse homem. Mas as recordações, a dor e a angústia continuam bem presentes.

Hoje aprendi uma grande lição: ninguém me volta a maltratar. Tenho muito orgulho na mulher que me tornei pois consegui ultrapassar tudo isso e apoio qualquer mulher que denuncia o seu agressor, nunca se deixem vencer pelo medo porque nós mulheres somos mais fortes do que imaginamos. Mas não convém esquecer que também há muitos homens que sofrem de violência doméstica e que também tem vergonha ou medo de denunciar suas agressoras.

Utente da UMAR Açores

Publicado na Página IGUALDADE XXI no jornal Diário Insular de 3 de Outubro de 2013.
 
 

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

MENSAGEM



“Tinha 24 anos quando conheci alguém na minha vida. Para mim foi amor à primeira vista, namorámos e ficámos noivos e por fim casámos. Deste casamento nasceram dois filhos, um menino e uma menina, com muito amor da minha parte. Ao fim de um tempo o príncipe acabou. Começaram os insultos, os maus-tratos, mas como eu o amava pensei que talvez acabasse. Mas não acabou, só piorou. Fiquei sem pais, estes faleceram, sozinha continuei casada, tinha dias bons, tinha dias maus… Quando vinham os bons pensava que tudo ia mudar e que não mais me maltratava. Os filhos cresceram e os maus-tratos para eles também, a ponto de eu pensar no suicídio, que talvez fosse a minha salvação, para a dor que eu tinha. Mas uma luz, um pensamento surgiu que a minha vida tinha que mudar. Depois de um desentendimento, ele saiu de casa e eu fiquei com os meus filhos. Foi a melhor época da minha vida, vivíamos os três em família. Depois regressou e eu tive que sair. Fui para casa de um familiar que me apoiou muito e a quem muito agradeço. Hoje sou feliz com os meus filhos, estamos numa casa sozinhos, pobre mas feliz. Venho por este meio dizer que tem que se ter força, é muito difícil mas tem que se pensar nos nossos filhos e em nós. Temos direito a ter valor e não ser aquilo que nos chamaram. Quero agradecer a toda a gente que me ajudou, pessoas amigas, família, instituições. E que a vida não acaba por seres vítima, apenas recomeça uma vida nova... E que a justiça se faz!”
Maria
 
Publicado na página Igualdade XXI no jornal Diário Insular de 1 de Dezembro de 2012.
 

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Eu escolhi viver…

25 de Novembro
Dia Internacional pela Eliminação da Violência Contra a Mulher


Eu escolhi viver…


Eu sou uma mulher como todas as outras. E como muitas outras vi-me enredada na teia dos maus-tratos.
No início nem me apercebi do que estava a acontecer, era muito nova, tinha 20 anos, e deram-se alguns comportamentos que só depois compreendi o que significavam – a pressa para casar, para me ter sob o seu controlo, a critica constante da minha forma de falar, de proceder. Fazia-me sentir condicionada, com dúvidas em relação a mim própria. E o ciúme? Por acaso não me iludi com o mito do ciúme ser sinónimo de amor, como acontece com tantas jovens… desde o início percebi que o ciúme era sinal de insegurança da parte dele.
Ele bebia muito, e quando bebia era bastante agressivo verbal e psicologicamente. Por vezes parecia louco, de algo insignificante fazia uma tempestade num copo de água e eu tinha de me calar e de me submeter. Com o tempo o seu comportamento agravou-se, ele foi-se tornando cada vez mais violento verbalmente – as palavras eram de uma violência extrema, e feriam de forma brutal…
A agressão física veio muito mais tarde, mas a partir desse dia, percebi que nunca mais podia confiar nele. Para mim, amor é sinónimo de confiança e respeito, e isso perdeu-se a partir daquele dia em que me bateu pela primeira vez. Eu soube logo aí que o meu casamento iria acabar um dia, porque não podia permanecer com uma pessoa assim, o que eu não sabia é que ainda levariam muito anos até isso acontecer.
Vivíamos no estrangeiro, e eu tinha conhecimento dos recursos de apoio existentes, mas nunca os procurei… a vergonha levou a melhor. Queria esconder de todos a minha situação, não contava a ninguém, guardava tudo para mim. As minhas colegas de trabalho apercebiam-se, porque eu aparecia várias vezes magoada mas nunca perguntaram nada, não se falava sobre isso. É o mesmo que acontece quando vemos alguém com uma deficiência física que nos choca muito, mas não temos coragem de perguntar “Porque é que tu estás assim? O que é que te aconteceu?”.
Eu dizia ao meu marido que não aceitava o facto de ele me bater, nem de ele beber em excesso, ele respondia-me que tinha de aceitar, tal como as outras mulheres aceitavam, mas eu não me conformava! Cá dentro sentia uma revolta contra aquilo. Não merecia ser tratada assim!
Quando voltámos para a Terceira, pensei que ia ficar mais protegida, perto da minha família, a exercer a minha profissão… mas o comportamento dele piorava a cada dia, e o pavor era o sentimento predominante na minha casa. Eu odiava a minha casa. As nossas filhas também sentiam a tortura psicológica que dominava o dia-a-dia.
Saí de casa algumas vezes, mas aí surgiam os pedidos de desculpa e promessas de mudança, que me faziam regressar… e após breves períodos de bonança, as tempestades voltavam com agressões e ofensas cada vez mais graves. O problema do alcoolismo agravava-se e ele finalmente procurou ajuda. No entanto, mais tarde acabou por se tornar dependente de medicação, que alterava ainda mais o seu comportamento. Muitas vezes senti que corria perigo de vida, e o medo de morrer surgiu em várias situações, mas a esperança na mudança faziam-me ficar mais um dia, mais um mês, mais um ano…
O que mais me magoava era a atitude das outras pessoas: “Então? Ela não sabe o que quer!”, “Porque não o deixa?”, “Não se decide!”, “Se continua a apanhar é porque gosta”. Para mim estes comentários demonstram absoluta ignorância acerca do que é viver a violência conjugal e o condicionamento psicológico a que a mulher é sujeita ao longo dos anos. Não percebem que é muito difícil terminar um casamento, acabar com uma família, há muitas coisas em jogo, muitos factores pesam sendo o medo um dos principais, apesar do desejo absoluto de libertação.
Eu sentia-me doente física e psicologicamente, cheguei a ter reacções que mais tarde considerei que não eram normais. Numa ocasião, após uma agressão andei na rua a deambular sem destino, não sei por onde andei, mas sei que entrei num consultório e o médico analisou a minha ferida e fez um relatório. Saí de lá com o relatório na mão, escondi-o, e nunca mais me lembrei que tinha estado no médico. O desgaste e exaustão eram tais, que já não conseguia lidar com a situação. Já não me reconhecia, com a minha auto-estima completamente em baixo, já não aguentava mais, senti que tinha chegado ao fundo do poço…
Uma frase fez a diferença. Um dia uma amiga, que já tinha vivido a mesma situação disse-me: «Tu queres morrer ou queres viver? Se ficares, vais morrer às mãos dele.» Foi este o clique da mudança. Naquele dia tomei a decisão final, procurei um advogado, planeei a minha saída, e nunca mais voltei… foi o primeiro dia do resto da minha vida, a primeira vez que dormi sem medo em anos. Mas não foi o início da minha paz. Ainda fui perseguida, agredida na rua, e ameaçada de morte. Através das minhas filhas, soube que tinha adquirido armas para me matar. O divórcio foi litigioso, moroso e doloroso… um processo que se arrastou durante cinco anos. Finalmente consegui libertar-me, mas o alívio só surgiu quando ele morreu, devido a doença prolongada.
Sei que muitas mulheres vivem o mesmo. Este testemunho é também para que não se sintam sós, comecem a pensar nelas próprias e não neles. Não pode haver amor onde não há confiança e respeito. Sejam mais fortes que a vergonha, e o medo de dar o passo decisivo… procurem ajuda! Sozinha é muito difícil. Toda a mulher tem direito a viver com dignidade e em paz. Lembrem-se também dos filhos e filhas, que ficam afectados psicologicamente e que isso vai influenciar as suas relações no futuro. Refaçam a vossa vida, mas com cautela, porque o perigo de cair na mesma teia é muito grande. Só com tempo se consegue estabilizar e escolher a pessoa certa, que nos dê valor e nos respeite como pessoas válidas e merecedoras que somos.

M.

Publicado na página Igualdade XXI – Jornal Diário Insular de 25 de Novembro de 2010