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sexta-feira, 18 de outubro de 2019

DESTAQUE DO MÊS DE JULHO DE 2019

Catarina Rocha Ribeirinha
 
 
É o nome da jovem de 16 anos natural da ilha Terceira, concelho de Angra do Heroísmo.
Frequenta o secundário na Escola Secundária Jerónimo Emiliano de Andrade e como todos os jovens da sua faixa etária tem sonhos e desejos. Ambiciona seguir para a faculdade quando terminar o liceu e continuar a jogar futebol.
Agora podemos questionar-nos: “O que é que a diferencia da maioria das jovens da sua idade?”  -  A Catarina joga futebol!
 
Como tudo começou
Eu comecei a jogar futebol na escola primária com 7 anos. Primeiro nos intervalos com os meus colegas e posteriormente aos 9 anos comecei a jogar no Boavista Clube da Ribeirinha com rapazes, devido à ausência de equipas femininas. Eu via os meus colegas a jogarem e um dia decidi experimentar, nesse momento eu senti algo que nunca tinha sentido, um sentimento inexplicável, uma alegria que me fazia acreditar que podia fazer tudo e isso motivou-me a alimentar esse sentimento.
 
 
Ser mulher num mundo, maioritariamente, masculino
Sinceramente, ainda há muita descriminação e falta de oportunidades para as mulheres. A aposta em termos monetários no futebol feminino não representa nem ¼ do que é gasto com o futebol masculino. Ser mulher num mundo masculino não é fácil. Como podemos afirmar que há igualdade no mundo se os números comprovam essas desigualdades? Uma rapariga que queira seguir o seu sonho de ser jogadora profissional com as condições que há, será muito difícil alcançá-lo. Eu tive de sair do Boavista porque já não tinha idade para jogar mais numa equipa masculina e a minha única opção para continuar a jogar foi ir para o futsal. Este ano joguei pela equipa feminina da Escola Secundária Jerónimo Emiliano de Andrade.
 
 
Medos e dificuldades
A maioria dos rapazes acolheram-me bem, tratavam-me como igual e sempre me respeitaram. No entanto, via-se que outros não gostavam que eu estivesse ali e achavam que por ser rapariga não sabia jogar e era inferior a eles. As principais dificuldades que sentia eram o medo de mostrar tudo o que sabia fazer pois em alguns casos se falhasse, posteriormente deixavam de me passar a bola.
 
Ganhar credibilidade, respeito e reconhecimento no mundo do futebol
Dentro do clube, todos me tratavam bem tanto os treinadores como a direção dando-me oportunidades e credibilidade. No entanto, houve uma vez em que um dos pais de um jogador perguntou porque é que a “rapariga” estava a jogar e o seu filho não. Ser uma mulher que joga futebol não é motivo de vergonha, mas sim de orgulho, porque estamos a representar todas as minorias e a mostrar que elas também têm talento e valor.
É bom saber que as pessoas reconhecem o nosso esforço, trabalho e dedicação. Contudo, não se vê muito reconhecimento aqui na ilha.
 
 
Como promover o futebol feminino
Eu gostava que fossem dados mais apoios, mais oportunidades, mais atenção ao futebol feminino de modo a termos possibilidades de no futuro representarmos grandes clubes e o nosso país. Nós também temos valor e temos capacidade de jogar tão bem quanto os rapazes.
 
Sobre ser mulher no século XXI
Ser mulher, hoje em dia, é mais fácil do que no passado. Os nossos direitos têm vindo a crescer, as mentalidades estão a desenvolver-se aos poucos e eu espero que no futuro as desigualdades tanto no desporto como em oportunidades no mercado de trabalho entre outras, sejam quase inexistentes.
 
O papel das associações feministas
Atualmente, as associações feministas têm um papel importante. É graças a elas que as mulheres têm conquistado mais direitos e marcado uma posição que lhes permite falar sem que as suas opiniões sejam consideradas irrelevantes. É importante que existam instituições cujos objetivos são a defesa do empoderamento das mulheres e da igualdade, a fim de alcançar um mundo melhor para as gerações futuras.
 
Sobre violência doméstica
As opiniões da sociedade quanto a este assunto dividem-se. Enquanto uns acreditam que essas mulheres estão a exagerar, existindo comentários como, por exemplo: “"se apanhou, era porque merecia", outros têm pena delas defendendo uma pena pesada para o agressor e a denúncia destas situações. Nenhum ser humano merece ser agredido tanto psicológica como fisicamente. O ditado   "entre marido e mulher não se mete a colher" não se deve aplicar a situações destas, é necessário denunciar esses casos, pois o sofrimento humano não deve ser ignorado. Por sua vez, deve-se realçar o papel das instituições que fornecem apoio e realizam campanhas de apoio à vítima.
 
Daqui a 10 anos…
Gostava de estar a jogar numa grande equipa porque é isso que me fará feliz.
 
Publicado na Página IGUALDADE XXI no Jornal Diário Insular de 16 de Julho de 2019

 

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

DOMÍNIO

 
 
Hoje em dia a maior parte das pessoas não falam nos problemas, discutem. Namorados, maridos ou amantes por vezes veem a mulher como uma toalha, um saco de boxe para descarregar a sua raiva depois de um dia difícil de trabalho ou de copos, depende da pessoa. Os maltratos podem-se trocar por amor, carinho e afeto, estimar a mulher é fazer com que ela passe de lixo a algo útil.
No meu caso consegui, de lixo reciclado, fiz uma obra de arte, aconselho a todos serem amigos e namorados por toda a vida.
A mulher é um elo tão forte e poderoso. Temos o dever de a respeitar e aceitar tanto a ela ou outra pessoa como são.
 
 Desabafo, Emanuel
 

Publicado na Página IGUALDADE XXI no jornal Diário Insular de 16 de Fevereiro de 2018
 


segunda-feira, 7 de março de 2016

Estudo da UMAR sobre a violência no namoro

Um em cada seis jovens acha normal forçar relações sexuais
 
 
A UMAR - União de Mulheres Alternativa e Resposta apresentou novos dados do trabalho de investigação que está a realizar sobre a violência no namoro. Os resultados indicam que há “ideias de poder e controlo” enraizadas, mas a sociedade está mais atenta e há mais denúncias
A Associação está preocupada com o facto de 22% dos jovens aceitarem as manifestações de vários tipos de violência registadas em relações de intimidade.
Foram inquiridos 2500 jovens, com idades entre os 12 e os 18 anos, e os resultados que se obtiveram demonstram quadros comportamentais e ideias consideradas inquietantes.
O estudo apresentado pela UMAR a 12 de Fevereiro, na Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto, distingue três tipos de violência: psicológica; física; e sexual. No que à violência sexual diz respeito, 32,5% dos rapazes (em oposição a 14,5% das raparigas) acham normal que se force as relações sexuais – uma média de 16%, considerando todos os inquiridos.
O quadro da violência sexual não inclui apenas as relações sexuais forçadas, nele cabendo também uma série de comportamentos sexuais definidos como violentos que 23% dos inquiridos consideraram legítimos. Ainda que quase um quarto dos jovens portugueses aceitem a "normalidade" deste tipo de agressão, só 4,5% assumem terem sido vítima desses comportamentos.
A violência psicológica é encarada como aceitável por quase um quarto dos jovens portugueses, e 8,5% consideram já ter sido vítima dela. Já a violência física é menos tolerada pelos jovens, sendo ainda considerada legítima por 9% dos inquiridos e com 5% destes a assumirem terem sido alvo de agressões.
Este trabalho de investigação, enquadra-se num programa de prevenção da violência, e não se resumiu à realização de inquéritos e desenvolvimento do estudo apresentado. A UMAR realizou um conjunto de sessões de sensibilização para prevenir a violência junto dos jovens e foi durante essas acções que detectaram “quão enraizadas estão as ideias de poder e controlo”, frisou Ana Guerreiro. “É difícil analisar estes números, e mais ainda ter os jovens à frente e constatar estes comportamentos”.
As agressões entre namorados, e também entre ex-namorados, só foram incluídas no âmbito do crime de violência doméstica, previsto no Código Penal, em Fevereiro de 2013. A Polícia de Segurança Pública recebeu em 2015 mais queixas por violência no namoro do que por violência entre cônjuges, mas 77% dos inquéritos abertos pelo Ministério Público por este tipo de crime são arquivados, na maioria das vezes por falta de provas. O relatório anual do Ministério da Administração Interna descreve o destino dos poucos casos que conseguem chegar às salas dos tribunais: “De um total de 2954 sentenças transitadas em julgado entre 2012 e 2014, cerca de 58% resultaram em condenação e cerca de 42% em absolvição. Na maioria das condenações (96%) a pena de prisão foi suspensa”.
Para Maria José Magalhães, presidente da UMAR, tudo isto é produto de uma cultura que "está na base do femicídio, da violência doméstica, da falta de respeito pelos direitos humanos em geral”. Na última década, morreram 398 mulheres vítimas de violência doméstica em Portugal.
 
Fontes: www.umarfeminismos.org e texto de Zita Moura / Jornal Público
 
Publicado na página IGUALDADE XXI no Jornal Diário Insular de 3 de Março de 2016
 

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

DESTAQUE DO MÊS DE AGOSTO DE 2013

MARTA SILVA
 
Fotografia: Fernando Reis

Fotografia: Luís Nunes
 
 
Marta Silva nasceu a 25 de Julho de 1970 e é uma jornalista bem conhecida de todos/as nós, pois frequentemente “entra” em nossas casas informando-nos sobre as realidades da região.
Marta trabalhou como contabilista durante 3 anos em S. Jorge, o que a fez ganhar autonomia, mas descobriu que o jornalismo era a sua verdadeira vocação por se relacionar mais com a sua maneira de pensar. Então decidiu continuar a estudar e licenciou-se em Ciências da Comunicação pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas na Universidade Nova de Lisboa.
Sobre o jornalismo refere que é uma profissão aliciante, porque sentimos muitas vezes que estamos a contribuir para dar a conhecer realidades, e é a soma dessas realidades que nos dá o conceito do mundo em que vivemos. O jornalista ajuda a construir a tal aldeia global, é um narrador de factos, que fazem a História. A informação, com tudo o que possa ter de bom e de mau, gera pensamento, e ideias, e é muitas vezes o motor da mudança. Sobretudo em democracias doentes, o jornalismo, ainda é um espaço que permite dar voz às minorias e respeita o pluralismo.
Como é trabalhar num mundo maioritariamente masculino?
Em algumas redações já começa a ser ao contrário, o predomínio é de mulheres. No meio televisivo, e na RTP-Açores, o trabalho técnico e de imagem está muito mais associado ao mundo masculino, por isso, é natural que a maioria dos colegas, sejam homens. Confesso que me abstraio disso, sempre lidei com os colegas de igual para igual. Em reportagem ou em gravações, somos todos elementos de uma equipa, não há distinções, em função do género. Ao final de 17 anos no meio, é bem provável que tenha ganho o sentido pragmático dos homens. Não digo que não.
Como foi a sua integração? Quais as principais dificuldades que sentiu / enfrentou?
Vinha da experiência de um estágio integrado, na TVI, onde tive a oportunidade de colaborar com reportagens para o Jornal da Uma, na altura apresentado e coordenado pela Clara de Sousa e pela Ana Lourenço.
Da adrenalina da informação diária, passei, na RTP-Açores, a um ritmo mais calmo, como colaboradora do programa Arquipélago, apresentado e coordenado pelo José Gabriel Ávila. Fazia uma reportagem alargada, por semana, ao estilo da produção, que também aprecio. Só mais tarde passei a trabalhar para os noticiários.
Da forma que o mercado de trabalho está agora, posso dizer que fui uma privilegiada, porque deram-me a oportunidade de fazer o que gosto.
Alguma vez sentiu que, no exercício da sua actividade, não lhe era dada a devida credibilidade por ser mulher?
Já, mas aprendi a lidar bem com isso. Também me sei colocar em bicos de pés, quando é preciso. As mulheres, muitas vezes pecam, por não se revelarem à altura dos desafios. Para reivindicar direitos é preciso mostrar deveres. A legitimidade só se ganha quando se dão provas. Embora, continue a achar que o sexo feminino tem de esforçar-se 20 vezes mais, do que os homens, para derrubar preconceitos.
Já alguma vez sentiu que era discriminada pelo facto de ser mulher?
Sim. Mas não admira, numa sociedade ainda profundamente machista, é natural que essas situações aconteçam.
É preciso ver que a história da libertação da mulher é recente. As várias ondas dos movimentos feministas que levaram a alcançar direitos, como o direito ao voto, ou à igualdade no trabalho, têm menos de um século. As próprias mulheres não souberam lidar com isso, cairam muitas vezes em exagero. E os homens habituados a uma série de privilégios e mordomias, tiveram dificuldade em adaptar-se.
As sociedades não se transformam num click. Há formas de pensar e tradições que ficam arreigadas. E as principais responsavéis pela perpetuação da corrente machista, são as próprias mulheres. São elas que têm um papel determinante na educação dos filhos, são elas que lhe transmitem valores e princípios, e que podem contibuir para a mudança de mentalidades.
Como acha que são vistas as mulheres vítimas de violência doméstica pela sociedade em geral?
Infelizmente são ainda encaradas como um elo fraco. Daí, que algumas, levem demasiado tempo a ganhar coragem, para denunciar as situações de violência.
A sociedade não vê a questão como um problema social e muitas vezes alheia-se de tentar ajudar. Mesmo quando a Organização Mundial de Saúde começa a considerar a violência doméstica, uma “epidemia global”.  
Acha que as associações feministas desempenham um papel importante na nossa sociedade actual?
Sem estas associações, muitos casos de violência doméstica seriam silenciados. O facto de existirem, leva a que as vítimas denunciem os casos a tempo de não tomarem proporções extremas.
Acho que a UMAR tem tido um papel chave no acompanhamento das vítimas com apoio psicológico e a garantir a autonomia, com encaminhamento para as casas abrigo e na procura de emprego. No longo prazo, as campanhas de prevenção são as que maior peso têm na mudança de mentalidades. Acho que a UMAR tem sabido fazê-lo com eficácia.
O que é que gostava de ver mudar neste século?
Menos Economia, mais Humanismo, melhores Lideres.
 
Publicado na Página IGUALDADE XXI no Jornal Diário Insular de 24 de Agosto de 2013.
 

quarta-feira, 24 de julho de 2013

DESTAQUE DO MÊS DE JULHO DE 2013

MARIA BETTENCOURT
 
Fotografia: Candi Bettencourt
 
Maria Garcia Gil Bettencourt tem 19 anos, o 12º ano de escolaridade e vive com a música desde sempre. No entanto considera a profissão de música como a “da miséria”…
 
Não se lembra de nenhum dia em concreto em que decidiu que queria cantar. Foi uma coisa que esteve sempre presente, já desde criança. A minha mãe cantava, o meu pai cantava e tocava, e depois todos os outros Bettencourt que de uma maneira ou outra me influenciaram. A sério comecei em 2007, com 13 anos.
 
Como é trabalhar num mundo maioritariamente masculino?
Sinceramente, é uma coisa que nunca me fez muita confusão. Para mim é normal. Talvez pelo hábito. É verdade que não há muitas mulheres em bandas, principalmente nas nossas ilhas, mas felizmente o número está a crescer. Também tenho tido sorte com as pessoas com quem partilhei o palco até hoje. Sempre me fizeram sentir como uma igual. A banda sempre me tratou como uma mulher, mas fez-me sentir como “one of the guys”. Quando subo ao palco, esqueço-me que sou a única rapariga no meio de 5 homens. Faço o meu trabalho o melhor possível. A principal dificuldade é, muitas vezes, ter de ouvir comentários menos agradáveis vindos principalmente do público masculino. Umas vezes dá-se resposta (vá, a maior parte das vezes. Não sou de ficar calada) outras, esses comentários entram por um ouvido e saem por outro. E há também o facto de levar mais tempo a arranjar-me. O pessoal todo com pressa, são homens, não querem saber de maquilhagem, e eu a tentar fazer o meu eyeliner o mais perfeito possível.
 
Sobre violência doméstica, pensa que muita gente acha que é uma coisa que a mulher deve aceitar. E não é. A vida pertence-lhe e deve ser ela a decidir o seu próprio destino. A igreja teve grande influência na ideia de submissão da mulher ao homem. Felizmente, as coisas estão a mudar e a evoluir para melhor. Mas há ainda muito a fazer para mudar este preconceito. Basta olhar para os números de mulheres vítimas de violência doméstica.
 
Releva o papel de associações como a UMAR Açores, pois é importante divulgar este problema (violência doméstica), sensibilizar as pessoas e abrir os olhos à nossa sociedade. Trabalhar para um futuro melhor. 
 
Que bandas a influenciam mais e porquê?
Em primeiro lugar, os Beatles. Não me lembro de não os conhecer. É a banda dos Bettencourts. Acho que não há ninguém na família que não goste deles. Depois os grande Led Zeppelin, os Queen e os Aerosmith. Todos liderados por grandes vocalistas que são um verdadeiro exemplo para mim. E da actualidade, os Paramore. São sem dúvida os que mais me influenciam. São liderados por uma rapariga, uma das mais energéticas e poderosas que vi em palco até hoje. Tenho muito respeito pela Hayley e pelo exemplo que ela dá a qualquer mulher que queira seguir a sua vida na música. Ela é a prova viva de que, actualmente, a mulher pode ter sucesso num mundo maioritariamente composto por homens e, para mim, destaca-se de todas as outras vocalistas que andam por aí agora.
 
Publicado na Página IGUALDADE XXI no Jornal Diário Insular de 24 de Julho de 2013.
 


quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Destaque do Mês de Dezembro de 2012

Paula Lima
“Cada palavra de alguma importância é potencialmente o ponto de interação de um número infinito de histórias (…) Este facto demonstra a riqueza da língua (…) mas também uma fonte inesgotável de incompreensão, de mistificação de manipulação. (…) a história surge sempre num contexto social e cultural. Isto significa paralelamente a uma determinada história existem outras histórias, nas quais a função da primeira é analisada criticamente no seu contexto.” (Nijk 1978, pp.115 e 180)

Paula Maria Ficher Lima, de 41 anos de idade, natural da freguesia de São Mateus, foi a primeira mulher motorista de pesados de passageiros na Empresa de Viação Terceirense, na qual trabalha há 7 anos.
Aos 30 anos, a motorista dos minibus travou durante 4 anos um longo percurso até conseguir chegar ao seu local de trabalho, como a própria refere, “quando cheguei á EVT, houve uma grande admiração quando pedi a inscrição e referi que esta era para mim, disseram-me que não tinha experiência e que até ao momento nunca tinham contido para trabalhar na empresa como motorista uma mulher. Ao longo de 4 anos vi a entrar pessoas com experiencia igual à minha e, sempre que me dirigia à empresa para saber da minha situação era sempre referido a minha falta de experiência. Foi um percurso complicado mas com persistência e pressão de certa forma da minha parte, após quatro anos de espera aceitaram-me e foi assim, que consegui vencer esta batalha”.
A 21 de Junho de 2005, Paula Maria Ficher Lima com 34 anos de idade, finalmente torna-se a primeira mulher a entrar para a EVT como motorista de pesados de passageiros, mas refere, que trabalhar num “mundo” maioritariamente masculino não é fácil, “pois, se já é difícil quando se é novo num trabalho, então quando se é mulher, mais difícil se torna, mas, com cuidado no diálogo, na perseverança e na exigência do respeito, consegue-se afirmar o nosso espaço entre os outros. Desta forma, à que saber ouvir quem está há mais tempo na profissão, aceitando as suas opiniões, ainda que estas sejam divergentes das minhas e, é deste modo, que deixam de ver-me de certa maneira como mulher e, passam a olhar como “um” colega cuja, a profissão é a mesma”.
Afirma, que apesar de ser a primeira mulher a trabalhar como motorista na EVT, foi bem recebida pela empresa e principalmente pelos passageiros, lembra-se da curiosidade e admiração das pessoas, referindo que,“faziam imensas perguntas e, muitas mulheres davam-me os parabéns, por ser a primeira mulher motorista, era um orgulho, diziam elas”.
Segundo a entrevistada, uma das suas principais dificuldades foi a farda, “sendo esta masculina tive de adaptá-la e até, de certo modo, criar a minha própria farda de acordo com os padrões exigidos pela EVT, tentando de certo modo torná-la mais feminina”.
No exercício da sua profissão nunca sentiu que a sua credibilidade fosse colocada em dúvida mas, infelizmente, já se sentiu muitas vezes discriminada por ser mulher, referindo que, “é pena que na nossa sociedade as mulheres sejam ainda discriminadas, uma vez que são dadas mais oportunidades de trabalho aos homens”.
Para finalizar, à pergunta, como acha que são vistas as mulheres vítimas de violência doméstica pela sociedade em geral, a entrevistada refere, “que a nossa sociedade cada vez mais perde valores, a sua ignorância rege-se pelo facto de não existir interajuda para com os outros. Estamos cada vez mais numa sociedade que é conduzida apenas por juízos de valor. A prova disto é o próprio“sistema” de proteção que envolve a vítima de violência doméstica, na minha opinião, é a primeira a discriminar a própria mulher e, explico o porquê de pensar assim, pelo facto de ser a vítima a ter de sair de casa e, em muitas das vezes sem ninguém (amigo ou familiar) para a apoiar, outro exemplo, encontra-se presente nas várias tentativas de denuncia feitas pela vitima que faz com que muitas das vezes não sejam levadas a sério, entre outros exemplos e, para isso não encontro nenhuma resposta social, apenas vejo, o apontar de um dedo”.

Entrevista realizada por Lisete Medeiros
Publicado na página Igualdade XXI no jornal Diário Insular de 19 de Dezembro de 2012.

quarta-feira, 24 de março de 2010

Destaque do Mês de Março de 2010

Destaque do Mês Zoya (nome fictício)

Cartaz soviético de 1932. Lê-se na parte superior: "8 de Março é o dia da rebelião das mulheres trabalhadoras contra a escravidão da cozinha." Na parte inferior lê-se: "Diga NÃO à opressão e ao conformismo do trabalho doméstico!" (in. http://pt.wikipedia.org/wiki/Dia_internacional_da_mulher)


A Revolução Russa de 1917 iniciou-se no Dia Internacional da Mulher, 8 de Março.
Antes da Revolução, o maior país do planeta, governado por uma monarquia absoluta, vivia tempos de avassaladora pobreza e exploração proletária. As greves foram-se multiplicando, tornando-se mesmo comuns, assim como os confrontos com as forças de segurança pública. Mas foi a 8 de Março de 1917 que o inesperado aconteceu. Reza a história, que as operárias de uma fábrica têxtil, situada em Petrogrado, hoje São Petersburgo, saíram às ruas manifestando-se contra a fome, contra o regime absolutista, contra a participação na 1ª guerra mundial, entre outros tantos protestos, quando a polícia não as deteu. Uma das marchantes recordara a um oficial que elas eram as mães, as filhas, as irmãs, dos soldados que estavam na fronte, ou seja, que pertenciam todos/as à mesma família. Este foi o começo da Revolução Russa que culminou, em 1922, com a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS).
Na Ucrânia, assim como nos restantes países da antiga URSS, o dia 8 de Março é feriado nacional; “é um dia para estar e agradecer às mulheres oferecendo-lhes flores” elucida Zoya, nome fictício da entrevistada do destaque do mês, de origem Ucraniana. Recentemente celebra-se nesta data, também, o dia da Mãe.
Zoya recorda-se, com alguma nostalgia, dos anos 80, antes do separatismo da União Soviética, avaliando a vida como “perfeita”. Comenta que “antes de 1992 a classe média era dominante, não havia ricos nem pobres; vivia-se em igualdade, (…), tínhamos oportunidade de estudar bem, trabalhar, comprar casa e carro”. Após independência, a Ucrânia confrontou-se com inúmeros problemas políticos e económicos que afectaram toda a população.
Por esta data, Zoya, recém-licenciada e mãe solteira, de pronto arranjou trabalho na sua área de especialização, inclusive, posteriormente, para fazer face às despesas vitais, alimentação e educação da filha, foi forçada a arranjar outro trabalho. Contudo o seu rendimento mensal, 60 euros, não era suficiente para fazer face ao cenário de hiper-inflação que se apoderara do país.
Sem futuro à vista, em 2001, decidiu emigrar para Portugal, o único país da União Europeia, que até então, mantinha fronteiras abertas, deixando, assim, a filha ao cuidado dos avós.
Presentemente, “os/as meus/minhas colegas do tempo de escola vivem quase todos/as em casa dos pais, (…), uma casa, geralmente, alberga, 3 gerações, avós, pais, filhos/as, podendo ainda chegar aos/às bisnetos/as, (…), é muito complicado, por isso muitas pessoas começaram a emigrar à procura de um futuro melhor ou para darem dinheiro aos seus familiares que ficaram na Ucrânia”, ressalva a entrevistada.
Através de uma rede ilegal de imigração, cujo objectivo era angariar mão-de-obra fraudulenta, Zoya, receando pela sua integridade quer física quer psíquica, introduziu-se no duvidoso mercado de trabalho como forma de poder legalizar a sua precária situação. De contabilista a operária numa fábrica de peixe, situada a norte de Portugal, trabalhava 6 dias por semana, 15 horas por dia. Cerca de uma centena de mulheres, e apenas mulheres, laboravam arduamente nesta fábrica de pequena dimensão, sendo ela a única e primeira imigrante. Lembra-se vivamente do primeiro sábado em que recebeu o equivalente aos seus 2 salários na Ucrânia, 60 euros, exclamando “nem acreditei, uma vez que não pagava casa, nem água, nem luz”. Hospedada com outras tantas operárias, por conta do patrão, recorda emocionada a camaradagem destes tempos de outrora, “talvez por ser a única imigrante protegiam-me e defendiam-me muito”, considera, acrescentando que “as outras imigrantes que chegaram depois não foram tão bem acolhidas como eu, (…), foram mais exploradas, sujeitas a trabalhos mais pesados”.
A sua primeira prioridade, como imigrante, consistia em legalizar a sua situação, portanto, sujeitou-se a 6 meses de trabalho na empresa anteriormente referida. De seguida ambicionava aprender a língua para depois procurar um trabalho melhor e, então, trazer a filha para Portugal. Um a um todos estes sonhos foram concretizados, também, não abdicou da aspiração de trabalhar na sua área de formação e apesar das equivalências não lhe terem sido atribuídas, voltou a estudar, tirando um curso técnico profissional de contabilidade geral e outro de informática aplicada à gestão.
“Aprender é a nossa forma de estar na vida, (…), o saber não pesa e melhora a qualidade de vida” defende Zoya, acrescentando que os/as ucranianos/as são, geralmente, trabalhadores/as altamente qualificados/as a nível educacional e profissional podendo aportar muito para o desenvolvimento do país de acolhimento. A curiosidade e a enorme vontade de aprender são traços comuns ao seu povo, quiçá, porque são fruto de uma educação que se baseia no dito proclamado por Lenine “estudar, estudar e mais uma vez estudar”.
Em 2004/5, Zoya, enamorou-se, desejou constituir família e mudou-se para os Açores, ilha Terceira, a pedido do companheiro de nacionalidade portuguesa.
Convencida que tinha reunido os requisitos necessários para trabalhar na sua área, e já apta ao nível do português, começou à procura de trabalho activamente; embora a sua área de residência fosse isolada e os transportes públicos escassos. Porém confrontou-se com uma realidade laboral em que a procura era muita e a oferta pouca.
Em 2006 separou-se do companheiro. Salienta que, durante este período o apoio da Segurança Social, assim como de várias IPSS e ONGs, foram fulcrais para a recuperação do seu bem-estar psicossocial.
Pelas trilhas da discriminação, Zoya, refere que, actualmente, a principal luta dos/as imigrantes reporta-se para o desconto nas passagens para o continente beneficiado pelos/as residentes das ilhas, declarando que “não é justo, trabalharmos, fazermos os nossos descontos e não termos os mesmos direitos que os/as outros/as cidadãos/ãs”, sendo que, um imigrante residente na Região Autónoma dos Açores tem o valor acrescido de quase 200 euros por viagem de ida e volta à capital.
No que concerne à integração dos/as imigrantes, a entrevistada, opina que ambos, quer país de acolhimento quer população imigrante, têm a sua quota-parte de responsabilidades neste processo. Sendo que, o/a imigrante deve estar disposto/a a aprender a nova língua, a trabalhar em serviços que não correspondem às suas qualificações, a resistir perante as adversidades, a ser empreendedor, a contribuir para o desenvolvimento do pais de acolhimento, a dar-se a conhecer assim como à sua cultura, para que possa melhorar a sua vida assim como da comunidade que o cerca. Relativamente à comunidade de acolhimento, neste caso a ilha Terceira, Zoya apela que “eliminem as barreiras (…) que compreendam que nós queremos estar aqui, queremos nos integrar e que temos muito para dar; assim como os vossos familiares noutros tempos emigraram para as Américas ou para o Canada, simplesmente à procura de um futuro”.

Raquel Félix Fontes

Publicado no Jornal Diário Insular - IGUALDADE XXI - de 24 de Março de 2010

segunda-feira, 22 de março de 2010

Igualdade XXI com nova imagem

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Para assinalar um ano desde a primeira publicação da nossa Página IGUALDADE XXI no Jornal Diário Insular, vamos estrear a nossa nova imagem na publicação de Março. O trabalho é da autoria do/as aluno/as de Multimédia da Escola Profissional da Praia da Vitória. O nosso muito obrigado pela colaboração.