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quinta-feira, 24 de maio de 2018

Alianças da Diversidade – Uma Escola Segura para Tod@s

 
 
Os dados estatísticos não mentem: 48% de jovens gays e lésbicas, bem como 33% de jovens bissexuais já foram alvo de homofobia e bifobia em contexto escolar (Freitas e Fontaine, 2014). Perante um contexto ainda discriminatório e heteronormativo, 94% de jovens lésbias, gay, bissexuais, trans e intersexo (LGBTI) optam por esconder a sua identidade, enquanto 36% a revelam de forma seletiva. E os números não se ficam por aqui: 60% já ouviu comentários ou testemunhou eventos negativos e 44% diz ser muito comum ouvir piadas sobre a sua identidade no dia-a-dia (Inquérito LGBT da Agência Para os Direitos Fundamentais da União Europeia, 2013). Perante este cenário, como podemos contribuir para que a escola seja um lugar seguro? A lei Lei n.º 60/2009 estabelece a obrigatoriedade de lecionar Educação Sexual nas escolas, nas diferentes disciplinas, implementada, por exemplo, através do PES – Projeto de Educação para a Saúde. Não existem, contudo, evidências que a abordagem destes conteúdos seja inclusiva.
 
 
É neste âmbito que surge a ideia das Alianças Da Diversidade (ADD), um novo projeto da Associação ILGA Portugal. Os dados são claros na necessidade de tomar medidas que visem combater todas as formas de discriminação em função da orientação sexual, identidade ou expressão de género ou características sexuais. O principal objetivo é a integração da população jovem LGBTI. Como? Não existe uma fórmula universal; para criar uma Aliança da Diversidade basta que um grupo de pessoas (independentemente da orientação sexual e identidade e expressão de género!) forme um grupo com o objetivo de dar visibilidade positiva a identidades não normativas, e a partir daí muitas ideias e atividades são válidas e bem-vindas, especialmente se partirem da própria comunidade escolar. Já assistimos a iniciativas como: encenações de situações românticas entre casais do mesmo sexo; o hastear da bandeira arco-íris; uma photo booth de aliad@s; a comemoração de datas simbólicas para a comunidade LGBTI (como por exemplo, o IDAHOT, no dia 17 de Maio - Dia Internacional da Luta Contra a Homofobia, Transfobia e Bifobia), entre muitas outras.
Ideias não faltam, aliados e aliadas também não: porque continuam então a soar tão alto as vozes da discriminação? Acreditamos que as Alianças da Diversidade são um importante contributo para esta necessidade de resposta: todos/as os que se identificam com a causa e acreditem na importância da luta pelos direitos humanos, sejam estudantes, docentes ou qualquer outro membro da comunidade escolar, podem ter a iniciativa de iniciar uma Aliança. Uma comunidade escolar que promove a diferença e trata todos/as como iguais é o ideal de escola segura e inclusiva!
 
 
Para mais informações:
add.ilga-portugal.pt | add@ilga-portugal.pt | +351927567666

 
Publicado na Página IGUALDADE XXI no jornal Diário Insular de 24 de Maio de 2018



segunda-feira, 30 de maio de 2016

Combate à homofobia e à transfobia: tempo de celebrar e de denunciar



No passado dia 17 de maio, por ocasião do primeiro Dia Nacional de Luta Contra a Homofobia e a Transfobia (instituído por unanimidade no Parlamento no ano passado), a Associação ILGA Portugal, congratulou-se pelo caminho percorrido no nosso país no reconhecimento dos direitos das pessoas LGBT (lésbicas, gays, bissexuais e trans), que culminou com o recente alargamento das técnicas de procriação medicamente assistida a todas as mulheres, incluindo casais de mulheres e mulheres solteiras. Ao mesmo tempo, quisemos denunciar e tornar visível a discriminação que ainda persiste em várias dimensões da realidade social, profissional, familiar, nos espaços públicos, nas relações de intimidade e no acesso a bens e serviços como a saúde, segurança, justiça ou educação. Com esse intuito, no mesmo dia, publicámos, pelo terceiro ano consecutivo, os resultados do Observatório da Discriminação em Função da Orientação Sexual e da Identidade de Género, desta vez relativos às denúncias registadas, de forma anónima e confidencial, durante o ano de 2015. São situações com origem em todo o país, cujos relatos nos devolvem um retrato de profundas marcas psicológicas, sociais e, nalguns casos, físicas, revelando o muito que há ainda por fazer para que a igualdade se concretize, nomeadamente ao nível da educação e preparação de profissionais em áreas estratégicas-chave. Ao mesmo tempo, revelam também aquilo que é o resultado de uma maior visibilidade e conhecimento dos direitos: com efeito, 24% das situações foram denunciadas a diversas instâncias, uma percentagem ainda bastante baixa e que espelha o peso do silêncio, mas que representa uma subida substancial relativamente a anos anteriores. Trata-se também de algo que pode significar um esforço por parte dos serviços de apoio a vítimas, designadamente as forças de autoridade, para aumentar o conhecimento da realidade das pessoas LGBT e contrariar as expetativas da discriminação que frequentemente lhes são atribuídas. A Associação ILGA Portugal tem desenvolvido um esforço nesse sentido, promovendo ações de sensibilização junto destes profissionais, e está atualmente a coordenar o projeto internacional UNI-FORM: bringing together NGOs and Security Forces to tackle hate crime and on-line hate speech against LGBT persons, financiado pela Comissão Europeia e que tem como objetivo conhecer melhor o fenómeno dos crimes de ódio e violência contra pessoas LGBT, assim como os baixos números de denúncias a autoridades competentes e a criação de um mecanismo único de denúncia a nível europeu. Apesar do esforço para quebrar o silêncio, as queixas continuam a chegar maioritariamente de Lisboa e do Porto. Fora dos grandes centros urbanos, e sobretudo nas regiões autónomas, onde o isolamento muitas vezes se faz mais sentir, muito fica por saber. Denunciar é tornar visível e contribuir para a mudança. Pode fazê-lo em observatorio.ilga-portugal.pt.
 
Publicado na página IGUALDADE XXI no Jornal Diário Insular de 26 de Maio de 2016
 
 

quinta-feira, 28 de maio de 2015

Denuncia a Discriminação!

 
 
 
Em 2014 o Observatório da Discriminação em função da Orientação Sexual e Identidade de Género da Associação ILGA Portugal recebeu 426 denúncias crimes e/ou incidentes motivados pelo ódio contra pessoas lésbicas, gay, bissexuais ou trans (LGBT), destas 198 constituem muito claramente crimes de ódio segundo definição da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE).
Segundo estes resultados, a maioria das vítimas têm entre 14 e 20 anos, são maioritariamente homens gay e já revelaram a sua orientação sexual e/ou identidade de género a pessoas amigas. Por sua vez, as pessoas agressoras têm, na sua maioria, entre 18 e 25 anos de idade, atuam em grupo e não conhecem as vítimas.
Portugal é um país bastante reconhecedor dos direitos humanos de todas as pessoas, nomeadamente das pessoas LGBT, mas a realidade é que a discriminação em função da orientação sexual e identidade de género é bastante preponderante, geograficamente transversal e sofre de uma grave ausência de mecanismos de resposta: veja-se que, quer em 2013 quer em 2014, mais de 90% dos casos no Observatório da Discriminação não são reportados às autoridades!
Ora, Portugal tem um Plano Nacional para Igualdade de Género, Cidadania e Não Discriminação, o segundo aliás com uma área para as questões LGBT, mas a existência e implementação deste Plano esgota-se no território continental. Então e as pessoas LGBT das Regiões Autónomas? Que políticas públicas as reconhecem e protegem?
A Madeira tem um Plano Regional para a Igualdade, mas faz apenas uma tímida menção a ‘todas as discriminações’ e uma menção explícita à orientação e igualdade de género no atendimento não discriminatório em contexto de saúde. Já os Açores não têm qualquer plano regional e será aliás o poder local, via Câmara Municipal de Ponta Delgada, a liderar este progresso que, acreditamos, será inclusivo. E esperamos que muito em breve o Governo Regional reconheça a importância deste passo - e o dê.
Quando o silêncio e a invisibilidade são as principais armas da discriminação, as denúncias assumem um papel determinante ao permitir conhecer algumas das facetas mais violentas da discriminação.
É por isso fundamental continuar a quebrar o silêncio e a denunciar a discriminação contra as pessoas lésbicas, gays, bissexuais e trans em observatório.ilga-portugal.pt.
 
Marta Ramos, Coordenadora de Projetos da Associação ILGA Portugal
 
 
Publicado na página IGUALDADE XXI no Jornal Diário Insular de 28 de Maio de 2015


segunda-feira, 12 de maio de 2014

Dia Internacional contra a Homofobia, Bifobia e Transfobia - 17 de Maio

Sábado 17 de Maio de 2014
Dia Internacional contra a Homofobia, Bifobia e Transfobia

18h00
Encontro na entrada da Câmara Municipal de Angra do Heroísmo
 
 
A associação LGBT Pride Azores promove um evento de acção pública na ilha Terceira com o apoio da Câmara Municipal de Angra do Heroísmo.

Está previsto a realização de um "cordão humano", na praça em frente às portas da Câmara, em que os participantes dão as mãos em nome de todos os seres humanos que sofrem devido à sua orientação sexual. O programa continua no Salão Nobre da Câmara Municipal de Angra do Heroísmo para uma conversa tertúlia sobre o assunto, incluindo testemunhos para que continuamos a combater as fobias na nossa sociedade através de educação e visibilidade do ser.

"Todas as pessoas são bem vindas, não interessa a orientação sexual, interessa a luta para uma sociedade mais justa de respeito para com todos os seres humanos," diz Terry Costa, presidente da Pride Azores, "Educação é muito importante e hoje em dia só através de visibilidade é que chegamos lá, por isso este evento é realizado anualmente de portas abertas num local público."

O Dia Internacional contra a Homofobia, Bifobia e Transfobia assinala-se a17 de Maio. A data foi escolhida lembrando a exclusão da Homossexualidade da Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados com a Saúde (CID) da Organização Mundial da Saúde (OMS) em 17 de Maio de 1990, oficialmente declarada em 1992. Um pouco por todo o mundo faz-se neste dia incluindo actividades a sensibilizar as pessoas no assunto. Este é o terceiro ano que a Pride Azores marca o dia, depois da Horta e São Roque do Pico a associação agradece o apoio da Câmara Municipal de Angra do Heroísmo para que o evento se manifeste na ilha Terceira.


 
 

sexta-feira, 24 de maio de 2013

CO-ADOÇÃO - Legalizar a realidade

Fonte da imagem: amor-entre-iguais.blogspot.com
O  Projeto de Lei n.º 278/XII, estabelece a possibilidade de co-adoção pelo cônjuge ou unido de facto do mesmo sexo. Recentemente  constata-se o aumento do número de casais do mesmo sexo, que constituem família, seja através da adoção plena por um dos parceiros, seja de uma forma dita natural.
Estas crianças, que estão a ser educadas por pais do mesmo sexo, não têm proteção jurídica, pelo simples facto de apenas um dos parceiros ter um vínculo biológico ou legal em relação à criança.
Foi visando solucionar esta situação, que o referido projeto de lei foi apresentado a discussão na passada sexta-feira, 17 de Maio - Dia Internacional da Luta contra a Homofobia -, propondo-se estabelecer um regime que torne segura a proteção jurídica das referidas situações monoparentais.
A adoção singular, ou seja, por um dos parceiros  já é permitida, sem discriminar devido a diferente orientação sexual do adotante, mas a discriminação existe relativamente à adoção conjunta por um casal do mesmo sexo.
Esta modalidade de adoção está legalmente bloqueada pelo artigo 3º, da Lei n.º 9/2010, de 31 de Maio e pelo artigo 7º, da Lei n.º 7/2001, de 11 de Maio.
Este projeto de lei, pretende acima de tudo acautelar o futuro e a segurança de crianças que nasceram e que vivem com famílias do mesmo sexo, sendo apenas ligadas biologicamente ou por adoção a um dos elementos do casal.
Está em causa prevenir situações, em que uma crinça vive cinco ou mais anos, numa família homoparental, morrendo o pai ou mãe biológica, essa criança será afastada do outro e entregue à família do pai ou mãe falecido.
Para evitar estas situações, permite-se que no caso de um casal unido pelo matrimónio ou unido de facto do mesmo sexo e sendo um dos elementos do casal progenitor de uma criança possa o outro membro do casal não progenitor, por sentença judicial, co-adotar a referida criança.
A co-adoção é irrevogável, desde que outra parentalidade, não esteja estabelecida.
O projeto que  foi votado na passada sexta-feira e aprovado na generalidade, passará a permitir a co-adoção por parte do cônjuge ou unido de facto do pai ou mãe da criança, desde que não exista outra parentalidade anteriormente estabelecida.
Foi um passo no sentido de legalizar uma realidade, importante e intrépido, atendendo a que vivemos numa sociedade em que a homofobia e a discriminação ainda acompanham, todos os que têm uma orientação sexual divergente da maioria.
Xénia Leonardo – Jurista UMAR Açores
Publicado na Página IGUALDADE XXI no jornal Diário Insular de 24 de Maio de 2013
 

quinta-feira, 24 de maio de 2012

HOMOFOBIA - Crime


Por
Mariana Ornelas (Psicóloga)
Xénia Leonardo (Jurista)

A homofobia consiste numa série de atitudes e sentimentos negativos em relação a homossexuais. Normalmente, tais comportamentos traduzem-se em antipatia, desprezo, preconceito, aversão ou medo irracional. Esta é a definição de homofobia, que na prática se traduz muitas vezes em actos de violência, contra quem se assume publicamente como sendo homossexual.

Nos tempos de escola, quantos de nós nos sentimos solidários com os colegas, que eram vítimas de maus-tratos por serem um pouco diferentes. E quantos de nós não terão consentido na agressão, apenas com o seu silêncio. E quantos de nós (espero que poucos), não terão sido os agressores de tais vítimas. No entanto, raramente se pensa nas vítimas de tais agressões, como vítimas de um crime.

Se pensarmos que um colega ou amigo está a ser agredido, por ser de um partido político diferente ou de um clube de futebol, pensamos não só em defendê-lo, como também em nos solidarizarmos com ele, quando o mesmo for às entidades competentes apresentar queixa-crime. E se a agressão for por questões raciais ou étnicas, não só tomamos o partido do amigo ou colega, como ainda ficamos chocados com o racismo/xenofobia demonstrado(a) pelo agressor.

Isto porque o racismo ou a xenofobia são formas de preconceito universalmente condenadas e censuradas.

No entanto, em questões relacionadas com a orientação sexual, muitos de nós optam por ignorar ou até mesmo incentivar a agressão. Não se compreende o porquê de atitudes diferentes, perante agressões motivadas por factores de discriminação idênticos aos que estão por detrás de uma agressão motivada por racismo/xenofobia. Os valores protegidos são os mesmos, a liberdade de escolha de cada um, o direito de optar e de ser respeitado pela sua decisão.

Ninguém tem o direito de tratar um grupo de pessoas como sendo de menor valor ou merecedores de menos respeito.

Embora possamos discordar da forma como cada um encara a sua sexualidade e a sua escolha de parceiro sexual, a mesma tem de ser respeitada. Os limites da nossa liberdade são definidos pelo início da liberdade dos outros. E quando se ultrapassa esses limites, tem de haver responsabilização.

E esse nível de responsabilização pode resultar num processo-crime.

Nos termos da nossa legislação, pratica um crime de ofensa à integridade física qualificada, quem ofender o corpo ou a saúde de outrem motivado e determinado por um ódio gerado pela orientação sexual da vítima. A qualificação do crime resulta da especial perversidade e censurabilidade que está presente na motivação do agressor (artigos 143º ou 144º, 145º e 132º, n.º 2, f), do Código Penal).

A pena a aplicar a quem praticar este tipo de crime, poderá variar consoante estivermos perante uma ofensa à integridade física simples (artigo 143º, do Código Penal) ou de uma ofensa à integridade física grave (artigo 144º, do Código Penal). No primeiro caso poderá ir até quatro anos de prisão e no segundo caso entre três e doze anos de prisão.

A UMAR Açores – Associação para a Igualdade e Direitos das Mulheres e o Cipa – Centro de Informação, Promoção e Acompanhamento de Políticas de Igualdade, no âmbito do espírito que norteia as suas intervenções, censuram tais formas de violência, determinadas pela orientação sexual.

A UMAR Açores/ Cipa incentivam que haja uma sensibilização perante toda a população para esta temática, nomeadamente na população escolar e outros públicos, que se tem traduzido através de acções de sensibilização nas escolas e outras instituições que as solicitem.

Na sequência de todas essas iniciativas, vem agora a UMAR Açores/Cipa, chamar a atenção dos leitores para o dia 17 de Maio, que comemora o Dia Internacional para a Eliminação da Homofobia.


Artigo publicado nos Jornais A União e Diário Insular a 17 de Maio de 2012 - Dia Internacional da Luta contra a Homofobia.


sexta-feira, 29 de julho de 2011

O que é a Homofobia?


Por Miguel Vale de Almeida
Antropólogo; ativista LGBT; ex-deputado à A.R.

A homofobia é o preconceito contra as pessoas homossexuais. É, nas questões de orientação sexual, equivalente ao racismo para as questões raciais ou ao sexismo para as questões de género. A sua origem está, aliás, relacionada com a do sexismo. Vivemos modelos históricos e culturais específicos de organização do género, isto é, dos atributos, direitos, deveres, papéis, etc, atribuídos a homens e mulheres. Eles são atribuídos de forma aparentemente simétrica, mas na realidade estabelecem uma hierarquia e uma assimetria – a que levou a que até há bem pouco tempo (e ainda...?) os homens tivessem mais liberdade, prestígio e poder do que as mulheres em função do sexo identificado à nascença. Uma das características dos padrões tradicionais ocidentais de organização do género é a própria heterossexualidade normativa, obrigatória. As pessoas são (eram...?) educadas para a heterossexualidade e os desejos ou experiências homossexuais são remetidas para o silêncio e a invisibilidade. Não sendo as pessoas homossexuais identificáveis por características físicas (ao contrário da diferença “racial” ou da diferença de sexo), é comum que o gay ou a lésbica cresçam na ausência de referências de homossexualidade, sentindo-se isolados/as, aceitando as classificações que historicamente os e as definiram como pecaminosos/as, doentes ou criminosos/as. A sua primeira confrontação com a homossexualidade – e o mesmo acontece aos e às heterossexuais – é com o insulto, com os nomes feios que se ouvem dizer para designar a figura imaginária do homossexual perverso, ou como exemplo de um comportamento que retiraria dignidade e prestígio. É por estas razões – o silêncio, a invisibilidade, o insulto – que a criação de identidades coletivas e sociais gay e lésbicas foi tão importante, a partir dos anos sessenta, para que mais pessoas se sentissem dignas. Ainda hoje a visibilidade – e a recusa da vergonha, através do orgulho em se ser quem se é – é uma estratégia fundamental na obtenção de reconhecimento e direitos, até porque os gays e as lésbicas não se reproduzem enquanto grupo ou população, ao contrário, por exemplo, de uma minoria étnica. Ser homossexual é ter uma orientação sexual, do desejo e dos afectos, por pessoas do mesmo sexo e, nesse sentido, deve ser visto como algo simétrico de ser-se heterossexual. No entanto, as estruturas sociais, a família, e os padrões culturais têm apresentado sistematicamente a heterossexualidade como a única via para a plenitude afetiva e sexual. Em vez de se esperar por uma lenta e desesperante “mudança de mentalidades” (que no entanto deve ser promovida, pela educação, pela formação antidiscriminação, etc), cabe ao Estado e à Lei garantirem os direitos, punirem a discriminação e darem o exemplo pedagógico à sociedade. Ao tornar-se num país pioneiro ao nível da igualdade no acesso ao casamento civil, o Estado português diz, no fundo, que é igualmente digno ser-se hetero ou homossexual. Falta a gora garantir que as crianças que as famílias feitas de casais do mesmo sexo têm vejam as suas duas figuras parentais reconhecidas – através da perfilhação ou co-adopção; que os casais do mesmo sexo possam candidatar-se à adopção (testadas, evidentemente, as suas capacidades parentais como deve acontecer com qualquer casal e independentemente da orientação sexual); e que as mulheres solteiras ou casadas com outra mulher possam recorrer à procriação medicamente assistida (como acontece em Espanha desde os anos 80). O combate à homofobia é tão imperativo como o combate ao racismo e, pelas mesmas razões, alcançar uma sociedade não-homofóbica é tarefa de todos e todas – homossexuais mas também, e se calhar sobretudo (por serem a maioria), heterossexuais.

Publicado na Página IGUALDADE XXI no Jornal Diário Insular de 29 de Julho de 2011

quinta-feira, 7 de julho de 2011

VI Noite de Igualdade

No passado dia 14 de Maio decorreu a VI Noite de Igualdade, com o objectivo de assinalar o Dia Internacional da Luta Contra a Homofobia (17 de Maio). Esta teve lugar na Academia da Juventude e das Artes da Ilha Terceira e contou com uma assistência bastante interessada e participativa. Esta iniciativa fez parte das actividades da UMAR Açores enquanto elemento do Gabinete de Assessoria ao/à Jovem, no âmbito de uma parceria com a Direcção Regional da Juventude.
Falou-se de questões pertinentes relacionadas com a orientação sexual e a identidade de género, com base em duas apresentações feitas por Bárbara Guimarães (jurista da Delegação da Terceira da UMAR Açores) e Miguel Vale de Almeida e moderação do jornalista Victor Alves. Miguel Vale de Almeida é antropólogo, activista do movimento LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transgénero), ex-deputado da Assembleia da República e professor associado do ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa.
Falou-se de homofobia e da conotação da homossexualidade com os termos “crime”, “pecado”, “doença”. Em alguns países, a homossexualidade é considerada um crime, por vezes susceptível de ser punido com pena de morte. Também a noção religiosa de pecado ainda lhe é muito associada. Por outro lado, alguns países continuam infundadamente a considerar esta orientação sexual uma doença, apesar de em 1990 (precisamente a 17 de Maio), a Organização Mundial de Saúde (O.M.S.) ter eliminado finalmente a homossexualidade da lista de doenças mentais.
Reflectiu-se também acerca da dificuldade que as pessoas sentem em assumir a sua homossexualidade, ou em fazer o processo de “coming out”, devido à discriminação que sentem por parte da sociedade. Esta discriminação traduz-se em opressão e perseguição, mas também em desigualdade de direitos. É verdade que em Portugal se conseguiu um grande avanço: o casamento entre pessoas do mesmo sexo, sendo o 6º país europeu e 8º país no mundo onde existe este direito. Mas, por outro lado, e sendo o casamento muitas vezes o início de uma família, está aqui vedado o direito à parentalidade, onde entram as questões da adopção, reprodução medicamente assistida e perfilhação.
A orientação sexual é definida pela APA (Associação Americana de Psicologia) como “o envolvimento emocional, amoroso e/ ou atracção sexual por homens, mulheres ou ambos os sexos” (2008). Quando todas as pessoas começarem a aceitar as várias orientações sexuais como válidas e merecedoras de respeito, a homofobia deixa de fazer sentido e dá-se mais um passo na compreensão da complexidade da sexualidade humana.

Rita Ferreira

Publicado na Página IGUALDADE XXI no Jornal Diário Insular de 27 de Maio de 2011

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Autonomia açoriana com avanços na Igualdade de Oportunidades


A Autonomia açoriana, em termos de orgânica da administração regional, tem estado à frente da República, no que diz respeito à defesa da igualdade de oportunidades. Quem o destaca é o antropólogo e ex-deputado Miguel Vale de Almeida que hoje à noite está na Academia de Juventude e das Artes da Ilha Terceira para participar na 6.ª edição das “Noites da Igualdade”, uma iniciativa da União de Mulheres Alternativa e Resposta (UMAR), para assinalar o Dia da Luta Contra a Homofobia, que se assinalada a 17 de Maio.

A Autonomia açoriana tem sido, de forma pioneira, potenciadora de uma maior igualdade de oportunidades entre géneros ao criar, na orgânica da administração regional, uma tutela sobre a matéria. Quem o ressalva é o antropólogo e ex-deputado Miguel Vale de Almeida, que está hoje na Academia de Juventude e das Artes da Ilha Terceira, para participar na VI “Noite da Igualdade”.

O professor universitário explica que os Açores – que refere conhecer bem – tiveram avanços superiores aos verificados no continente: “parece-me que os Açores têm tido um avanço muito grande ao nível dos organismos autonómicos, nomeadamente, com a criação de uma direcção regional da Igualdade, antes de haver ao nível da República e portanto isso foi um avanço muito grande”.

A região, acrescenta, “têm também uma intervenção do movimento social muito interessante, por parte da UMAR, por exemplo, ou o CIPA (Centro de Informação, Promoção e Acompanhamento de Políticas de Igualdade) – uma iniciativa muito interessante”.

De resto, acresce, “as diferenças não são significativas”, considerando que nas ilhas há “uma sociedade diversa onde vamos encontrar níveis de tolerância e de intolerância igualmente distribuídos como no resto do país”.

Falar do que falta fazer

Miguel Vale de Almeida explica os temas que estarão hoje, na Praia da Vitória, a partir das 20H00, em explicação e sensibilização: “quero dar conta daqueles que foram os progressos dos últimos um ou dois anos em torno da igualdade, do acesso ao casamento civil, na lei de identidade de género e também nas questões do género em geral, não só questões de orientação sexual”.

“E também falar – porque acho que é muito importante – daquilo que ainda falta fazer e que ainda é significativo. E promover a ideia que só vivemos melhor em Democracia com mais igualdade e que as questões dos direitos são independentes das situações de crise como aquela que atravessamos e portanto não há razões nenhumas para não avançarmos mais ainda”.

Isto porque, em termos legais, conta, ainda há muito a fazer: “em termos legislativos – enquadramento fundamental para tudo, porque serve de pedagogia para mudar as mentalidades – nós estamos, de facto, em falta no que diz respeito à questões de parentalidade, isto é, garantir que as crianças que vivem com casais do mesmo sexo possam ter o direito de ter os seus dois pais ou as suas duas mães e não só a relação legal com um deles; também é preciso alterar a lei da procriação medicamente assistida para as mulheres sozinhas poderem recorrer a elas, uma vez que para neste momento para recorrerem à procriação medicamente assistida é preciso a mulher estar tutelada por uma união de facto ou por um casamento com um homem, o que me parece bastante anticonstitucional; e por outro lado o acesos à adopção pelos casais do mesmo sexo”.

O activista do movimento Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transgéneros refere que primeira questão é “a mais urgente”.

Do amor de pleno direito

“O sentimento, o amor, as emoções, os afectos, a vontade que as pessoas têm de viverem juntas, de construírem famílias, e de serem reconhecidas como pessoas de pleno direito”, são estes, enumera, os valores e as matérias mais importantes para as quais o antropólogo alerta em vésperas do Dai Internacional de Luta Contra a Homofobia, que se assinalada a 17 de Maio.

Questionado sobre a relação entre os meios urbanos vs rurais e a homofobia, Miguel Vale de Almeida é claro: “curiosamente não há uma correlação muito directa entre os meios rurais ou mais afastados e mais homofobia. A correlação não é tão clara assim. Às vezes encontra-se altos níveis de tolerância nesses meios e o contrário em meios urbanos, classes altas. O fundamental à dirigir a palavra aos sentimentos comuns que as pessoas têm em relação aos amores e aos afectos”.

“Desconstruir preconceitos”

Segundo o sociólogo Miguel Pinheiro, da delegação da UMAR na Terceira, em declarações à Lusa, a “Noite da Igualdade” que a União de Mulheres Alternativa e Resposta (UMAR) realiza hoje na ilha Terceira, pretende “desconstruir preconceitos associados à homossexualidade", através de uma abordagem informal do problema.

“Existe ainda muito preconceito em relação à homossexualidade”, frisou o responsável tendo por base os resultados de uma avaliação feita no programa “Crescer sem discriminação do género, etnia e cultura, orientação sexual e deficiências”, promovido pela UMAR junto de alunos desde o 3.º ano do primeiro ciclo até ao 12.º ano e do ensino profissional.

“Ainda se notam certos comentários, incluindo de crianças e jovens, que, no fundo, reproduzem o que ouvem em casa ou em grupos de amigos”, afirmou o sociólogo, frisando que a Noite da Igualdade pretende juntar ao serão “o maior número possível de pessoas para uma abordagem sem complexos das questões de orientação sexual”.

A Noite da Igualdade, com entrada gratuita, começa às 20:00 e “não tem hora prevista para terminar”, já que, segundo Miguel Pinheiro, “não se trata de um seminário, mas de uma conversa informal, em que o público será chamado a intervir”.

Além da presença de Miguel Vale de Almeida, Bárbara Guimarães, jurista da delegação da UMAR na Terceira, abordará questões relacionadas com a legislação sobre o casamento de pessoas do mesmo sexo.

A Noite de Igualdade é uma iniciativa da UMAR/CIPA (Centro de Informação, Promoção e Acompanhamento de Políticas de Igualdade), em parceria com a Direcção Regional da Juventude, no âmbito da parceria com o Gabinete de Assessoria ao Jovem.

Humberta Augusto

Notícia Publicada no Jornal A União de 14 de Maio de 2011.